Tomar banho depois de comer é mesmo perigoso?


O receio é legitimo, quando várias gerações de pais disseram: "Não vás, podes morrer." Mas será que é mesmo assim? 

Tem tudo a ver com a temperatura da água. Água quente do chuveiro não traz mal nenhum. Mas a água fria do mar já é diferente.

No campo digestivo, os espanhóis é que a sabem toda. Dormir a sesta durante a tarde tem vantagens no mesmo sentido que evitar mergulhar o corpo em água fria logo após comer. Mas, calma: ao contrário do principio que os nossos pais nos incutiram quanto éramos pequenos, ir a banhos depois da refeição não é mortífero. E poderá mesmo estar isento de consequências. Tudo depende da temperatura da água.

"Se a água estiver muito fria é perigoso. Se estiver à temperatura do corpo não", diz Ana Isabel Pedroso, médica de Medicina Interna no Hospital de Cascais. Tem tudo a ver com a distribuição da energia no corpo. Quando se inicia o processo digestivo, é no conjunto de órgãos que formam este sistema que o sangue se vai concentrar.

"Se entrarmos numa água fria vamos dirigir a nossa energia ao processo de aquecimento, o que interrompe a digestão", explica. Assim se entende que nem todos os banhos são perigosos: tomando um duche em casa, a uma temperatura amena, não há risco de paragem de digestão, porque o sangue se mantém concentrado no processo digestivo. Não será necessário socorrer os músculos e a pele, porque não há choque térmico.

Na praia já é diferente porque a água tende a estar mais fria. "O choque térmico para o frio é que pode ser problemático", diz. "Se estamos na digestão e, de repente, precisamos de nos aquecer, aquela energia que estava a ser usada no processo digestivo vai para os músculos e para pele, havendo uma interrupção que faz com que a comida fique suspensa onde está", ou seja, no estômago ou no intestino delgado.

Consequências deste interregno? "Mau estar geral, com náuseas, vómitos ou diarreia." No entanto, a regra não é estanque. Se o banho for rápido, a probabilidade de a digestão ser interrompida diminui. Se os alimentos ingeridos tiverem sido leves também, porque a digestão é muito mais rápida. Por outro lado, fontes de gordura poderão não ser favoráveis, porque demoram mais a serem digeridas pelo organismo, o que requer mais tempo de energia ali concentrada.

E há ainda a questão do timing. "[Ir para dentro de água] Logo no início o risco é menor porque o processo de digestão ainda não está no seu auge e, portanto, o fluxo sanguíneo não está ainda maioritariamente dirigido para o aparelho digestivo", explica, indicando que o organismo demora entre 1h30 a duas horas a processar uma refeição. "Mas como depende de muitas variáveis - o tipo e quantidade de comida ingerida, por exemplo - o melhor é não arriscar muito."

Agora, é preciso entender que esta repartição e alteração dos caminhos do sangue poderá levar a outras consequências. A médica indica o aumento de probabilidade de hipotermia, que, apesar de ser raro (e implicar muito tempo dentro de água fria), não se deve descartar. Mais uma vez, é pela distribuição da energia, que se divide em dois: apesar de ser mobilizada para aquecer o corpo, há ainda uma pequena parte que poderá ficar na digestão e, assim, poderá não ser tão eficaz em nenhuma das tarefas.

É por este mesmo motivo que o exercício físico é completamente desaconselhado durante a digestão. A energia começa a ser levada aos músculos, abandonando o estômago e outros órgãos envolvidos neste processo. A conhecida caminhada para "desmoer" também é um mito clássico: há quem sinta que uma caminhada depois do almoço ou jantar faz bem porque ajuda a fazer a digestão, mas a verdade é que a atrasa porque também requer energia.