Se está entre o "mudo ou não mudo o meu filho", mude-o!

03-11-2018

A mudança alimenta a curiosidade

São muitas as pessoas que, duma forma crítica e num tom austero, me falam da "vida real". Na verdade, eu sinto que me repreendem e me ralham com "a vida real". Como se eu me esforçasse por ignorá-la. Ou como se todos aqueles que tenham uma visão amorosa daquilo que a vida possa ser se entretivessem a "pintá-la" de cor de rosa. "A vida real" será, aos olhos daqueles que me censuram, um enorme buraco. Negro.

"A vida real", para estas pessoas, é uma chaga, seguramente. O que faz com que aqueles que acham que a vida não tem poesia se sintam legitimados a roubarem-nos, até, ao sorriso com que, ao passarmos uns pelos outros, damos como sinal para que as pessoas se cheguem para mais perto e nos conheçam. Mas a vida tem poesia, claro. Imensa poesia, na verdade. Nos mais pequenos pormenores. Sempre que nos dispomos a sentir aquilo que ela nos oferece, a todos os momentos. Por mais que andemos todos atulhados com o "lixo" que os dias também nos trazem. Sentindo, a todos os momentos, vivemos como se as emoções e os sentimentos nos fossem, por vezes, um bocadinho estranhos. Sem darmos conta que começamos a morrer quando nos tornamos indiferentes a tudo aquilo com que eles nos admiram. E com que nos resgatam à "vida real".

Talvez a admiração seja a forma como todos nós reagimos a uma mudança. Depois de a vivermos a medo, claro. E é por isso que não entendo o medo com que os pais poupam os seus filhos a quase todas as mudanças.

As crianças precisam de rotinas. É verdade. Mas rotinas não significam que elas tenham de ter os seus dias, uns atrás dos outros, a decorrer de forma sempre igual. Como todos nós, aquilo que se repete e nunca se renova traz-lhes enfado e tédio. Talvez porque não as obrigue a admirarem-se mais vezes com tudo aquilo que a vida lhes traz de diferente (que as obriga a apurar todas as coisas - sobre si e sobre o mundo - que, até aí, elas supunham que sabiam). As rotinas, quando se é mais pequeno, introduzem um lado familiar no mundo que, sempre que os pais não estão ao pé de si, leva as crianças a sentirem-se mais seguras e menos vulneráveis. Mas as rotinas não podem significar que elas vivam mal com a mudança. Não vivem! Sobretudo porque é a mudança que alimenta a sua curiosidade. E lhes dá os recursos para se transformarem, ousadamente, em pessoas audazes, quando se trata de reinventar a vida, dando-lhe a poesia que só quem se admira consegue ver.

É por isso que, chegados a este momento do ano, quando os pais vacilam entre "mudo ou não mudo o meu filho de turma ou de escola", eu digo: mude-o! Todas as mudanças doem, claro. E todas elas, quando o medo nos agarra, fazem-nos supor que, diante da "vida real", apetece crescer andando para trás. Mas, não, não é verdade que as mudanças nos levem a perder os amigos. A não ser que eles nos vivam como se nós nos limitássemos a compor as suas rotinas entediantes mas nunca abrissem connosco as "avenidas largas" com que se cresce para a vida. Se está entre "mudo ou não mudo o meu filho", eu digo: mude-o! Ele vai descobrir que atrás de cada estranho pode estar um amigo. Ele vai aprender que a mesma matemática, com um outro olhar de quem o ensine de novo, pode ser desafiadora e apetitosa. E vai descobrir que o nosso lugar na vida só parece garantido quando, com humildade, lutamos por criarmos novas clareiras ao lado de quem nos trouxe consigo até à mudança. O amor pela vida faz-se de mudanças; "a vida real" do pavor que elas trazem a quem a vive como uma rotina maçadora.

A mudança faz com que as crianças se abram para admiração. Portanto, se as quer afastar da "vida real", mude-o. Só as pessoas que não têm medo da mudança não fogem daquilo que sentem. Nem fogem da admiração. E só elas descobrem, para sua surpresa que, até onde parecia que a segurança se faz de rotinas, é a poesia que a vida nos traz que nos torna mais capazes de a amar. Todos os dias.

Autoria: Eduardo Sá | eduardosa.com