Porque é que os adolescentes ficam alérgicos aos pais?


Ter filhos adolescentes é lixado. Ser mãe tem momentos difíceis no geral. Mas os adolescentes são um mundo especial. Primeiro porque, ao contrário do que acontece com o cansaço em relação aos bebés, ainda é tabu desabafar sobre isto. Depois, porque na adolescência somos espectadoras de festas de hormonas saltitantes. Esquizofrénicas, até. Como mulheres, sabemos daquilo que elas são capazes: esfranfalham-nos os nervos e o corpo. Os nossos miúdos são adultos em construções, cheios de dúvidas, certezas e angústias. Disto eu já tinha falado.

Mas porque é que é normal virarem-se contra os pais?

Aquilo que poderá ser cansativo, revoltante e triste tem, na verdade, bastante lógica. É como o artigo do The New York Times diz:

  • Crescer envolve separarmo-nos dos nossos pais. Este projeto começa no início da adolescência com uma abrupta e poderosa vontade de nos distinguirmos dos adultos de casa. Para os adolescentes não é uma tarefa fácil separarem-se daqueles que controlaram praticamente todos os aspetos da sua vida até então."

Quando se dá este fenómeno - em que ganham consciência de existirem como seres humanos, em que se aparecem a eles próprios - analisam o comportamento dos pais e dividem-nos por duas categorias: os que rejeitam e os que pretendem adotar. E tudo isto desencadeia sentimentos muito confusos e intensos a nível da construção das suas personalidades.

O mesmo artigo dá um exemplo disto: "podem não achar nada de mal sobre os vossos sapatos atléticos datados, mas se o vosso adolescente não concordar com a vossa escolha ele pode, pelo menos durante algum tempo, achá-los insuportáveis. Porque é que deveria interessar-lhes aquilo que está nos nossos pés? Porque a identidade dele ainda está entrelaçada com a vossa. Até ele decidir que estilo vai adotar, o vosso ainda interfere com o dele."

Por outro lado, é normal que um miúdo ligado ao desporto e que corria com o pai, deixe de o fazer para passar a praticá-lo com os amigos.

Ou seja, a personalidade está a ser definida e há uma exacerbada e confusa necessidade de afirmação pessoal. É por isso que nada do que fazemos está bem para os nossos filhos adolescentes.

Como é que atravessamos esta fase de adolescentes alérgicos?

1. Encarar como um desenvolvimento saudável. Sim, custa não sermos os heróis da vida deles, mas ao sabermos que estes comportamentos são normais e sinais de crescimento, conseguimos analisar as atitudes de forma racional. E esperar que a fase passe. E que comece uma nova.

2. Ignorar alguns comportamentos, mas relembrá-los que não podem ser mal educados.

3. Aproveitar a consciência de existência do adolescente para conectar. Ou seja, ter em conta que eles sabem que existem, sabem que são pessoas, com princípios, valores, gostos e opiniões, e deixá-los ser quem são (ou acham que são) em determinadas ocasiões. Deixá-los escolher música, roupa, filmes, por exemplo.

4. Ter consciência de que o afastamento nos custa tanto a nós como aos nossos filhos adolescentes. Ninguém está preparado para isso.

5. Ter outros interesses e amigos. Encontrem atividades e apostem em amizades. Se tiverem amigos pais de adolescentes, melhor ainda. Dediquem tempo ao marido, mulher ou companheiro.

6. Imponham algumas regras para os os filhos adolescentes mais rebeldes. As adolescências são diferentes e há graus diferentes de dificuldade. Para os que estão constantemente a desrespeitar e desafiar os pais, imponham algumas regras. Podem querer estar sozinhos e ter o próprio espaço deles. Mas devem manifestar este desejo com educação, mas insolência não.

O tempo fará com que esta fase alérgica passe. Assim que se conhecerem, estabelecerem interesses e gostos, nasce um sentimento novo, que, gradualmente, os fará ver os pais como seres humanos que não representem só aquilo que eles querem ou não querem ser.

Até lá, muita calma com os filhos adolescentes e com os pais deles.