O tablet faz parte da caixa dos brinquedos?

08-05-2018

Os pais com todo o amor do Mundo que têm para dar aos seus filhos, por vezes, optam pelo caminho que é mais fácil, as tecnologias, isto é, sempre que as crianças estão mais agitadas entregam-lhe "aquele objeto mágico", o tablet, e elas ficam milagrosamente sossegadas por alguns instantes e, assim, os pais não precisam de se preocupar durante esse tempo, podem fazer o jantar, podem trabalhar, ou simplesmente descansar, e a criança está entretida no tablet. A verdade, é que o tablet se tornou um acessório substituto da famosa chupeta, é uma espécie de substituição direta, assim que a criança deixa chupeta, damos-lhe um tablet e a função mantém-se, sossegar a criança.

É verdade que algum tempo só para os pais é absolutamente necessário, mas os limites para o uso das tecnologias é imprescindível. Aliás os limites para todos os comportamentos das crianças é fundamental para um crescimento saudável, porque cada vez que os limites são comprometidos, começa a crescer um pequeno tirano de centímetro em centímetro, as vontades da crianças começam a ultrapassar as vontades dos pais e, aí sim, começam os problemas familiares. Inicia-se aí, um sem fim de reações que estão longe de um crescimento saudável, os gritos, os braços de ferro, a constante luta por quem manda mais lá em casa, e por fim, chega as explosões em que os pais não se conseguem controlar, acabando por bater nos seus filhos, porque nessas alturas já não há chupeta ou tablet que lhes valha. Assim, os pais e os filhos expressam, as emoções da pior maneira.

Muitas das nossas crianças aos 3 anos já dominam o tablet, é ótimo que a criança tenha ao seu dispor toda a tecnologia, até porque no nosso dia-a-dia somos bombardeados com novas informações e tecnologia em todo o lado, mas essa tecnologia tem de ser equilibrada e rigorosamente doseada. Se assim não acontecer, a criança começará a ficar no chamado piloto automático, tornando-se mais fácil manusear um tablet do que andar de bicicleta, apertar os atacadores, ou construir puzzles. É na infância que a inteligência emocional tem um terreno fértil para se desenvolver, em que as crianças aprendem a conhecer o outro e a relacionar-se, e, as tecnologias estão de alguma forma "a chutar para canto" as relações humanas, promovendo o isolamento da criança, ou a interação atrás de um tablet.

O grande desafio às famílias é conseguir que o tablet não se sobreponhas as atividades tradicionais, que fomentam o correto desenvolvimento infantil. É essencial que continuemos a ter crianças que brincam, e brincar subentende-se que a criança pegue na toalha de banho e que faça dela uma capa de super homem, é pegar num galho de árvores e fazer uma espada, é explorar o faz de conta, em que a criança vivencia vários papéis, colocando-se no papel da mãe, no papel do pai, no papel da professora, no papel da avó, é ser herói e vilão, permitindo-lhe explorar os outros e descobrir quem é. O brincar é tão mais bonito e tão mais construtivo, quanto mais autêntico e genuíno for, quanto mais livre for. Assim, a criança coloca à prova a sua imaginação e criatividade e isso é fundamental.

Nós não somos contra o tablet, o que nos preocupa, é a forma como estamos a colocar em risco as relações humanas, e a por fim à imaginação e a criatividade de uma criança. Os pais apercebem-se disso quando a criança não consegue relacionar-se com os amigos ou quando chega a hora de fazer uma composição na escola e a criança não consegue fazer, ou quando tem de contar uma história e não conta nada mais nada menos que os factos, não se baseando na sua imaginação para colocar-se nos papéis do narrador.

É nos momentos de brincadeira, que a criança começa por resolver as suas frustrações, quando não tem um carro vermelho com portas a abrir ou uma boneca com um vestido às bolinhas, tem de se reinventar, inventar outra brincadeira ou procurar outro brinquedo. Ao lidar com as frustrações, vai sendo capaz de redescobrir o mundo, gradualmente, primeiro o mundo interno e depois o externo. Temos de permitir, com todo o amor e proteção, que uma criança se sinta ligeiramente frustrada, não lhe dando todos os acessórios para que a criança ocupe o seu tempo, para que possa ter tempos livres de tecnologias, de brinquedos xpto's, podendo assim reinventar-se, e explorar todos os seus sentidos. Se queremos crianças criativas, com capacidade de imaginar, de se relacionar e de ser empáticas, se queremos futuros adultos saudáveis e com capacidade de pensar por si próprios, temos que permitir que as nossas crianças tenham espaço para criar, sob pena de, caso contrário, nos limitarmos a criar crianças apenas capazes de reproduzir.

Autoria: Escola do Sentir