O seu filho não distingue algumas cores? Atenção! Pode ser daltónico!


Identificar as cores é uma situação básica para qualquer ser humano. Pelo menos é assim que grande parte pensa. Mas este pensamento está errado. Há quem não consiga olhar para um vermelho e perceber que aquela cor é vermelha. Há quem olhe para um azul e não veja essa cor como o comum dos mortais. E a isso não se chama preguiça, nos mais pequenos, ou distração, nos mais crescidos. A esta perturbação chamamos daltonismo.

E como se caracteriza, afinal de contas, um daltónico? «É uma pessoa que tem um défice que pode ir desde o chamado daltonismo relativo, em que há apenas uma cor em que ele tem mais dificuldades, até a um daltonismo radical.

Nesse caso ele vê o mundo, passo a expressão, entre o branco e o preto, cinzas», começa por explicar o Professor Doutor Eugénio Leite, oftalmologista e diretor clínico das Clínicas Leite. «Normalmente, grande parte destas situações são daltonismos relativos, que é o vermelho, azul e verde. É um destes eixos que está afetado. Tem a ver essencialmente com os recetores. Os cones e os bastonetes. Basicamente não nos interessa os bastonetes, interessam-nos os cones, que são o fotorecetor que vão identificar a cor. Depois há aqui as combinações de cor. Obviamente são combinações das cores básicas. E se um destes eixos está afetado, a pessoa até vê o mundo com algumas cores, mas aquela cor, o vermelho, não vai ver. Ou seja, vai ter dificuldade em identificar», continua.

Esta deficiência (sim, o daltonismo é uma deficiência!) representa «cerca de oito por cento no caso dos homens e é menor no caso das mulheres, porque está ligado ao cromossoma X, o que significa cerca de um por cento». E se pensa que a qualquer momento pode ficar com este problema, desengane-se, porque o daltonismo nasce connosco e é hereditário. «Nós nascemos daltónicos e depois há um conjunto de causas que pode levar ao aparecimento do daltonismo, por alteração precisamente dos fotorecetores. Digamos que há aqui duas modalidades: é uma doença hereditária, mas também há patologia que dá este tipo de situação», acrescenta o Professor Eugénio Leite.

Muita atenção aos sinais que o seu filho lhe dá

Se o seu filho, recorrentemente tiver dificuldade em identificar as cores, fique alerta. Por vezes não se trata de preguiça, ele pode é não ver as cores da mesma forma. «Felizmente não são muitos os casos, mas tenho alguns identificados. Mas lá está! Foi porque os professores na escola, quando começaram a ensinar as cores, se aperceberam. Eles fazem aquele primeiro rastreio empírico, em que detetam que a criança identifica o lápis vermelho, porque aquele lápis tem lá uma marca, mas não identificam pela cor. E começam a mostrar dificuldades nalgumas cores. Normalmente as crianças têm uma capacidade de adaptação tremenda. Ajustam o seu mundo àquilo que veem e funcionam», explica.

Para além de ter conversado com especialistas, o site Crescer quis também ouvir «o outro lado». Afonso Rodrigues tem dez anos e é daltónico. Os pais começaram a achar estranho a dificuldade que tinha em identificar as cores. «Com cerca de quatro anos, numa altura em que é normal as crianças já conhecerem e distinguirem bem as cores, apercebi-me que o Afonso, volta e meia, me perguntava as cores de alguns lápis. O mesmo se passava na escola, onde a educadora me chegou a dizer que ele ainda não sabia as cores. Eu achei isso estranho, uma vez que o Afonso sempre foi uma criança esperta e muito desenvolta a falar. No entanto, achei por bem ir com ele a uma consulta de oftalmologia - por uma questão também de rotina - e questionar a médica acerca dessa situação. Ela fez-lhe os testes que são feitos para se descobrir o daltonismo e, sem grandes precisões, adiantou-me que o Afonso tinha uma grande probabilidade de ser daltónico... Mais ainda quando tenho já um caso na família e esta doença é hereditária», conta Rita Leal, mãe do pequeno Afonso. A confirmação do diagnóstico surgiu quando ele tinha seis anos. E como é explicar a uma criança tão pequena, que não vê - nem nunca verá! - as cores como as outras crianças? «Não é fácil explicar-lhe uma coisa que ele não vê, não é? Mas aquilo que eu e o pai sempre fomos dizendo é que quando ele sentisse dificuldade em distinguir as cores, quer em casa, quer na escola, que pedisse ajuda, nomeadamente em trabalhos relacionados com a escola. Ele sabe quem tem esse problema e vive muito bem com ele», continua a mãe. «Explicar a uma criança que não vê as cores como a esmagadora maioria das pessoas, pode-se tornar uma tarefa bastante difícil uma vez que estamos a tentar ensinar algo que a criança nunca viu, logo, não sabe como é. Contudo, não é uma tarefa de todo impossível. De um modo geral, as crianças aprendem as cores entre os dois anos e meio e os três anos de idade, começando por distinguir cores vivas como o vermelho, o verde e o amarelo. Portanto, trocar as cores aos dois anos e três meses não é seguramente um motivo de preocupação. Em idade pré-escolar esta dificuldade não limita a atividade da criança, mas ao entrar no primeiro ano de escolaridade deparam-se com uma série de exercícios cuja percepção das cores é fundamental para o bom desempenho das tarefas. Nesta fase e sem deixar adiar muito mais tempo, é fundamental que se explique à criança de uma forma simples, serena e livre de preconceitos, que tem uma visão especial que lhe permite ver as cores de uma maneira diferente, mas que não é mau, é apenas especial! Pode inclusive pedir à criança para lhe ensinar as cores com que vê cada objeto, fazê-la sentir-se valorizada, importante e especial. Que as suas condicionantes nunca sejam sentidas como um obstáculo ou um aspeto negativo, é o principal», esclarece a psicóloga clínica, Marta Martins.

E estarão os pais e professores preparados para lidar com o daltonismo? «Se me fizessem esta pergunta há 20 anos, eu diria que os professores não estariam sensibilizados para serem os primeiros escrutinadores de um conjunto de problemas ligados à área de oftalmologia. Hoje, eu digo que, particularmente os educadores de infância, são pessoas extremamente atentas ao desenvolvimento das crianças. Ou seja, não estão lá por estar, para entreter os meninos, têm realmente uma função e exercem-na muito bem. Detetam com frequência alguns problemas nas crianças», explica o Professor Eugénio Leite. Mas nem sempre isso acontece.

Os truques para lidar com uma criança daltónica

Afonso chegou a ser prejudicado na escola por ser daltónico. «Esse era o nosso medo... E, de facto, aconteceu. Ainda no pré-escolar, e depois do diagnóstico da oftalmologista, falei com a educadora dele e expliquei-lhe que ele tinha essa doença. Pedi-lhe inclusive que ela o ajudasse quando ele sentisse dificuldades e, na altura, pareceu-me que ela tinha ficado esclarecida. No entanto, qual não é o nosso espanto quando no final do ano letivo, sou surpreendida com uma observação por parte da educadora do Afonso em que ela assinalou o facto de ele, com aquela idade, ainda não conhecer as cores», conta Rita.
Apesar de ser um caso esporádico, a verdade é que muitas crianças podem ser prejudicadas, indiretamente, por sofrerem de daltonismo. E aqui entra o apoio psicológico. «O melhor conselho que se pode dar é que façam sentir estas crianças integradas, que interajam com elas com a maior normalidade possível. É necessário que ensinem às crianças estratégias e truques para que aprendam as cores de cada objeto de uma forma o mais natural possível para que não se sintam inferiores ou excluídas das demais. Existe um código para distinguir as cores e que facilita a integração das crianças daltónicas, chamado ColorADD, que consiste na identificação das cores mediante símbolos. São cinco símbolos que permitem identificar as três cores primárias e também o branco e o preto. A partir daí, os símbolos combinam-se para as diferentes tonalidades e dessa forma a criança reduz a consequência da falta de perceção das cores. Um truque para que a criança possa colorir na sala de aula sem grandes dificuldades é colocar em cada lápis um papel a indicar a cor do mesmo. A criatividade e tranquilidade de Pais e professores é fundamental para que uma criança daltónica não se sinta excluída dos seus colegas e para que a sua auto-estima não fique fragilizada», realça a doutora Marta Martins.

E afinal de contas, que principais sinais os educadores têm de ter em relação ao daltonismo? «Confusão das cores! Sempre que uma criança comete um determinado erro de identificação persistentemente numa determinada linha, os pais devem ter aqui uma função quase de brincando, repetir o jogo das cores. Cores básicas. É vermelho, verde, azul, amarelo, preto... Se a pessoa não identifica uma determinada cor, deve procurar se há algum problema com a criança. Penso que os pais não devem partir do pressuposto que a criança é desatenta e que se está nas tintas. Não deve ser assim. Se não se notou nada até então, por volta dos quatro, cinco anos de idade, deve ser feita a primeira consulta de oftalmologia... ou até antes», garante o Professor Eugénio Leite.

Assim, se notar alguma dificuldade do seu filho em identificar as cores, procure um oftalmologista para fazer o diagnóstico através de alguns testes. «Há testes com números e com imagens. Na prática o que eu faço é colocar em determinado contexto cromático, um dos eixos de cor, isto, independentemente da imagem que eu lá ponha. Seja um número, seja um objeto. Tem de ter uma determinada configuração para identificar. Isto são testes de despistagem, obviamente que quando nós depois vamos estudar, há o teste de Farnsworth, que é um teste muito minucioso, que obviamente é muito mais difícil de fazer para uma criança, mas aqui muitas vezes interessa-nos é detetar. Existe ou não existe que é o primeiro passo», explica o especialista.
Se o diagnóstico for daltonismo, tenha consciência de que não tem cura. Mas não se assuste! «É uma questão genética. É uma deficiência que não impede de fazermos uma vida tranquila e normal», garante o Professor Eugénio Leite. «Prejudica mais a nível profissional, como por exemplo, para quem quer ser piloto. Isso é impossível. Hoje há sistemas para identificar as cores para os daltónicos. Quando vão fazer compras, conseguem fazer as suas aquisições, graças ao sistema que identifica a cor. A pessoa imaginariamente vai perceber a cor vermelha», finaliza.