O instinto maternal, o sexto sentido e as boas mães

03-11-2018

"Equipamentos de base" ou "equipamentos de opção"?

O instinto maternal existe, sim. Não é um apelo feminino para a maternidade. Mas faz-se das respostas - reflexas e de fundo biológico - que uma mulher manifesta diante dum bebé (ou, se preferirem, que uma fêmea demonstra com uma cria). Na forma como protege e como o cuida. Na modo como o interpreta. E no jeito como o "enche" de comportamentos de ternura.

A questão que se pode colocar, de seguida, é se o instinto maternal basta para se ser mãe. Ou, talvez de forma mais clara, se é de instinto maternal que se constrói o amor materno. E a resposta é, obviamente, não. Doutro modo, não haveria, também, mães que se arrependem (grande parte das vezes, em "clandestinidade") de terem sido mães. E não haveria más mães. Sendo certo que, muitas daquelas mulheres que, por circunstâncias diversas, se transformam em más mães talvez devam ao instinto maternal, pela forma como ele as pode ter ajudado, a que alguns dos "estragos" que os seus comportamentos poderiam ter trazido ao desenvolvimento dum bebé não serem maiores.

O instinto maternal existe, sim. Mas, a par, é a forma como a mãe se articula com aquilo que sente e com tudo o que pensa que ela se vincula ao bebé. O que pode fazer com que, em situações-limite, o instinto maternal se iniba e não se manifeste nos seus comportamentos expectáveis. O instinto maternal não é, então, "o quanto basta" para que a vinculação mãe/bebé exista. Para ela contribuem, também, a relação com o pai do bebé. E, sobretudo, com o próprio bebé. E um conjunto de circunstâncias que, por vezes, comprometem quase tudo. Seja como for, é o bebé, pela forma vulnerável como faz com que a mãe se sinta desmedidamente amada, que faz com que ela se dê mais e mais e receba mais e melhores demonstrações de um amor sem reservas, num ping-pong que cresce em espiral. Ou seja, sem amor não há vinculação. E sem vinculação, mesmo que o instinto maternal esteja presente, não há amor materno.

Mas um bebé traz apelos, coloca desafios e formula problemas. Logo, precisa de quem o intua e interprete, com clarividência e de forma simples. Encontrando respostas que o sosseguem, o esclareçam e o tornem mais mais apto para colocar apelos, desafios e problemas; sempre mais complexos. E para conhecer, claro. Isto é, o amor materno precisa da inteligência da mãe. Do modo como ela, de forma clara e favorecendo a sua autonomia, o protege, o ensina e conduz. A esta competência das mães no sentido de tornarem os seus filhos competentes para conhecerem, para pensarem e para serem autónomos vamos chamar maternalidade. Será, em rigor, aquilo a que todos chamamos "sexto sentido". Que não é um sucedâneo do instinto maternal. E que não será, seguramente, e também por isso, um "equipamento de base" da mãe e um "equipamento de opção" no pai. O amor materno precisa da maternalidade para que a mãe se transforme em boa mãe. Ou, indo mais adiante: o instinto maternal precisa da vinculação para que o amor materno exista. E o amor materno do "sexto sentido" para que a mãe se transforme em boa mãe. Sendo certo que nem a vinculação, nem o amor materno nem a maternalidade são imutáveis, para sempre. Precisam de ser alimentados e estendidos para que se recriem e sejam capazes de, pela vida fora, responderem aos apelos, aos desafios e aos problemas que um filho nos traz.

Em resumo, não basta ser mulher para ser mãe. Não chega ser mãe para para que se seja boa mãe. E ser boa mãe "um dia" não significa que se seja boa mãe para sempre.

Autoria: Eduardo Sá | eduardosa.com