O filme CARGA está disponível para escolas

25-01-2019

A Zero em Comportamento apresenta "CARGA", um filme português associado ao combate ao tráfico de seres humanos, através da parceria com a Associação para o Planeamento da Família (APF).

SINOPSE:
Um camião, uma estrada e um destino imprevisível cruzam-se numa rede de tráfico de seres humanos. Apanhada nessa rede, Viktoriya tem apenas uma hipótese: lutar para sobreviver.

TEMAS EM FOCO:
Migrações, Combate ao Tráfico de Seres Humanos, Direitos Humanos

DISCIPLINAS SUGERIDAS:
_ Português - 10º ano
_ Geografia A - 11º ano
_ Ciência Política - 12.º ano
_ História A - 12º Ano
_ Filosofia A - 12º Ano
_ Geografia C - 12.º ano
_ Psicologia B - 12.º ano
_ Sociologia - 12.º ano
_ Antropologia - 12.º ano
_ Direito - 12.º ano

INFORMAÇÕES ÚTEIS: - Mínimo de 25 alunos, de manhã ou em horários de reduzido impacto (13h ou 15h), durante a semana; - Os professores e, ou acompanhantes adultos não pagam (no limite de 5 por grupo); - Marcação com 10 dias de antecedência 

Limitado aos cinemas aderentes, nomeadamente CINEMAS CITY, CINEPLACE, CASTELLO LOPES CINEMAS e O CINEMA DA VILLA (Cascais). 

Duração do filme: 113 min. 

Classificação Etária: +16 anos 

PREÇO DOS BILHETES: - 4€ por aluno (excepto sessões de manhã nos CINEMAS CITY em que o preço será de 4,5€ por aluno) 

Veja o trailer aqui

As escolas e professores interessados deverão enviar um email para servicoeducativo@zeroemcomportamento.org manifestando o interesse e nº de alunos. 


  • EXCERTO DA ENTREVISTA AO REALIZADOR BRUNO GASCON 

Que mensagem quis passar com este 'Carga'? A mensagem foi, antes de mais, demonstrar que essa realidade [do tráfico de seres humanos] existe, que pode acontecer a qualquer um, ao nosso vizinho do lado, à nossa família e a nós. Nós não estamos livres disso. E é fazer também um alerta para as pessoas estarem atentas, porque, sendo um problema global, muitas vezes está encapotado por outros problemas. Por exemplo, o tráfico de seres humanos pode estar encapotado pela prostituição. E como é um problema que não pode ser falado, não pode ter um rosto, porque quando as redes de tráfico são apanhadas e as vítimas são salvas, muitas vezes não podem dar a cara, porque os raptores conhecem as suas famílias, sabem onde elas moram e elas vivem enclausuradas e com medo. Acima de tudo, é um pouco dar voz a essas pessoas e lembrar que nenhum de nós está livre disso. Até porque depois de ter lido muito coisa e ter estudado muitos casos, vi que, no tempo da última crise, em Portugal existiu, não tanto tráfico sexual, mas muito tráfico laboral... de portugueses. 

Dentro do mundo do tráfico de pessoas, escolheu a realidade do tráfico sexual, que atinge sobretudo vítimas do sexo feminino. Porquê? Acima de tudo tratei o tráfico de mulheres, e o tráfico sexual, porque acho que toca mais as pessoas. A sociedade está em evolução e hoje ouve-se falar muito sobre a igualdade de género. Mas, de certa maneira, e apesar de as mulheres neste filme serem as personagens mais poderosas, quis retratar e quis demonstrar que ainda estamos a um passo largo de alcançar essa igualdade. E temos de fazer alguma coisa para mudar isso.

As mulheres, no filme, são vítimas, na sua condição de traficadas, mas não são totalmente vitimizadas. Consegue empoderá-las, digamos. Sim, porque normalmente nos filmes deste tipo, as mulheres são vítimas e os homens são indestrutíveis e com o poder físico. E aqui eu quis dar o poder às mulheres. O poder físico pode estar maioritariamente nos homens, mas o poder mental é das mulheres, e eu quis dar-lhes esse poder no filme, porque normalmente é mostrado o inverso. E acho que já está na hora e já chega de estarmos sempre a ver que as personagens poderosas são os homens e as mulheres são sempre colocadas de lado e postas para baixo. As coisas têm de começar a ser iguais e a ser vistas de outra forma e a sociedade só tem a ganhar com isso e nós evoluímos.

Não teve contacto direto com vítimas de tráfico para fazer este filme, como é que chegou então às realidades vividas por essas pessoas? Li muitos casos, fui ouvindo histórias, porque temos a parceria da Associação para o Planeamento da Família, que, em Portugal, combatem o tráfico de seres humanos e ajudam vítimas. E fui baseando o meu processo naqueles casos que fui lendo, nas movimentações das redes de tráfico de seres humanos, como é que elas se movimentam, como é que operam e atuam, o que é que acontece àquelas mulheres, como é que elas são guardadas. O meu processo passou muito por aí, por ler muitos casos, porque, como disse, não tive acesso a essas mulheres, a falar diretamente com pessoas, e tentar perceber. E por me meter muitas vezes na pele daquelas pessoas. Quando estou a criar as personagens, tento meter-me na posição delas e perceber o que é que eu faria naquele lugar, seja as mulheres vítimas da rede de tráfico, seja o chefe da rede, o camionista ou a mulher que faz parte dessa rede. Tento sempre, mediante todo aquele processo e o passado que as personagens têm, perceber de que forma é que vão agir.

E não são, cada uma delas, personagens muito planas. Há sempre um grau de complexidade. Gosto de criar essas personagens cinzentas, porque nós, na vida real, também temos camadas. E gosto de criar essas camadas porque todas as pessoas têm uma bagagem e o mesmo acontece com as minhas personagens. Isso vai definir a sua forma de agir, a sua forma de falar, os gestos que têm. Vem tudo desse passado. Não existem pessoas boas e pessoas más, existe sempre esse lado cinzento e eu gosto de atribuir-lhes esse lado. A Viktoriya, que é a personagem principal, interpretada pela Michalina Olszanska, mesmo ela tem um lado cinzento, que se vai ver no filme, se fosse tudo preto ou branco, ela não teria. Mas se fosse na nossa realidade essa personagem provavelmente iria reagir dessa forma. E é esse lado que faz com que as personagens se tornem mais reais. Há uma coisa que eu pus em todas as personagens que tem a ver com características nossas, que é todas elas têm uma escolha, todas têm um caminho. E, tal como nós, muitas vezes entre fazer o bem comum e salvaguardar-se a si mesmo, todas elas escolhem esta, a chamada lei da sobrevivência. No filme inteiro, existe uma ou duas personagens que têm esse rasgo de fazer o bem comum. Eu quis trazer essa característica para dar ainda mais realismo às personagens. E neste filme eu quis mostrar que o tráfico de seres humanos não afeta só as pessoas que lá estão, mas também as que as rodeiam, e essas pessoas não conseguem ter essa perceção. As redes não afetam só as raparigas que foram traficadas, afetam as famílias, os amigos, os vizinhos, afeta um grupo de pessoas. E também quis mostrar isso.

E, com isso, mostra também as ramificações dessas redes na sociedade, que são mais extensas do que se possa pensar. Exatamente. Quando estava a escrever o guião ouvi histórias de como funcionam as redes de tráfico de seres humanos. Elas funcionam como um polvo, se se cortar um tentáculo, continua a haver os outros tentáculos na mesma. Imaginemos que é descoberto o modus operandi de uma das formas da rede de tráfico de seres humanos. Eles cortam esse tentáculo, mas arranjam forma de criar outro, criam novas maneiras para que a rede não acabe, trocam esse modus operandi todo. É muito complicado e acho que ainda falta preparação com essas redes.