O amor sem limites e a culpa na parentalidade

26-06-2018

Este texto é para ti que sentes culpa. A culpa que vem do amor de ser pai ou mãe.

A entrada no mundo da parentalidade ensina que o amor não tem limites. A este amor sem limites, muitas vezes, chega o sentimento de culpa por tanto se desejar o melhor para a criança, por tanto se preocupar com o seu bem-estar e o seu desenvolvimento.

Esta culpa pode tornar-se um bloqueador de felicidade e bem-estar e um impulsionador de ansiedade, dificuldade em observar as potencialidades da criança e de acreditar que muito é possível desde que se percebam que adaptações ou ajustes se podem fazer perante as fases ou desafios que vão surgindo. 

Porque surge o sentimento de culpa na parentalidade?

O sentimento de culpa surge na sequência do amor sem limites. Quando amamos, queremos proteger, dar tudo de nós para que a pessoa que mais precisa esteja no seu melhor e se sinta o melhor possível. No entanto, há questões biológicas, neurológicas, comportamentais ou desenvolvimentais que, enquanto não forem realmente aceites ou observadas, dificultará o caminho da felicidade e bem-estar. No fundo, não te permitirá conhecer verdadeiramente a criança e "vivê-la" na sua verdadeira essência.

A culpa pode ser mais que uma

  • Estarei a fazer o suficiente? O sentimento de culpa reflete a sensação de não se estar a fazer o suficiente. Pois bem, pára e pensa comigo: se te preocupa se estarás a fazer o suficiente, é porque certamente te preocupas e olhas para o teu filho/a e tens interesse em saber como fazer. Isso já não é importante? Acredito que sim. Quando sentires culpa, faz uma pausa de dez minutos e pensa em duas ou três coisas que fizeste na última semana para ajudar o teu filho/a. Não tens de ter super-poderes, basta dares o teu melhor!
  • Não posso mais.O sentimento de culpa também pode estar relacionado com a saturação de toda a logística, rotinas, as terapias no caso das necessidades especiais, etc. É normal este sentimento. Antes de pai/mãe, lembra-te que és uma pessoa e tens direito a sentires o cansaço. Se estás a passar por esta fase aconselho-te a arranjar ajuda para teres tempo para ti ou até mesmo refletir sobre o que poderás reformular no teu dia-a-dia que te dê alguma "pausa". Saber pedir ajuda é um ato de coragem e libertação, não é sinal de fraqueza. Saber dar prioridade a ti mesmo, é fundamental para que estejas mais feliz, para que te sintas mais disponível emocionalmente e fisicamente para os que te rodeiam e contam contigo.
  • A culpa pelo comportamento da criança. Quando uma criança tem comportamentos desajustados, nos surge com um desafio derivado do seu próprio crescimento ou até mesmo de um diagnóstico, é frequente que os pais e a família da criança passem por uma fase de negação, de raiva, de indignação. Outra das fases, é a fase da culpa...e muitas vezes, esta fase transforma-se num "elemento da família da criança", dificultando aos seus membros reconhecer potencialidades, reconhecer talentos, reconhecer pontos positivos, valorizar conquistas. Em vez de te perguntares "o que fiz de mal?" pergunta-te "fiz algum mal intencional ao meu filho/filha para que esteja/seja assim?". Por vezes, não há biologia, neurologia ou comportamentos que consigas alterar pelas tuas próprias mãos. Outras vezes, bastará procurares saber mais sobre o desenvolvimento do teu filho/a, parares para refletires não sobre o que possas ter feito de mal, mas sim sobre o que podes fazer para ajudar o teu filho/a e se isso é o que ainda podes fazer realmente está nas tuas mãos! Em vez de lutares contra ou te deixares ficar pelo que estás a sentir no presente, faz o teu caminho para escutar, aceitar a natureza, as dificuldades e necessidades do teu filho/a e focares-te em conhecê-lo, em descobri-lo.
  • Não consigo dar atenção aos meus outros filhos. A verdade é que quem tem mais do que um filho, e principalmente se algum deles tem necessidades especiais, sente que não está a conseguir dar atenção ou a acompanhar os passos de todos de igual forma. Com isto, é frequente que te questiones se estarás a falhar com a tua família. O melhor que podes fazer é validares que as circunstâncias, por vezes, assim o levam. Lembra-te de que 5 minutos de grande foco e interesse, são mais valiosos do que 24 horas lado a lado sem grande comunicação ou ligação. Por isso, agarra-te a todos os "5 minutos" e verás que todos sentirão que são valiosos de igual forma para ti.

A importância de te libertares da culpa

A culpa poderá funcionar como um portão que não te permitirá ser dono das tuas emoções, saber observar e analisar de forma mais clara as verdadeiras questões, comportamentos ou dificuldades que o teu filho/a está a passar. Ao estares por detrás desse portão, não conseguirás ajudar na superação das suas questões e estar tão disponível quanto queres para ti, para o teu filho/a ou para a tua família.

O truque é fazeres o teu caminho para aceitar a criança e/ou as circunstâncias. E o aceitar irá permitir-te focar todos os teus esforços e intenções em superar desafios, em promover e estimular o desenvolvimento do teu "amor sem limites", tornando-te a ti, ao teu filho/a e à tua família num ninho ainda mais feliz e unido!

Aceitar é amar sem limites e sem culpa.

Autoria: Beatriz Pereira | Blog Mais q' Especial