Nunca foi bom, por aí além, ser-se criança


Por isso, nem sempre, nos sentimos o melhor do mundo

Nunca foi bom, por aí além, ser-se criança. Sermos pequeninos torna-nos frágeis e vulneráveis. Faz com que precisemos quase completamente de quem nos acalente, nos deseje e nos conheça. E nem sempre quem nos ama gosta tanto de nós como aquilo que imagina. Sermos pequeninos faz com que tenhamos de ter paciência, porque nunca se cresce depressa, por mais que os pais insistam e insistam que devia ser assim.

E faz com que tenhamos uma ideia esclarecida do mundo e das pessoas por mais que não a consigamos explicar, de forma clara e em poucas palavras, a não ser pela forma como nos calamos, nos irritamos ou debandamos em retiradas, ao mesmo tempo que fazemos de conta que não existimos. E faz com que precisemos do colo e das cavalitas para vermos o mundo dos pais doutras perspectivas. Mas nem sempre eles se põem no nosso lugar e imaginam o nosso.

Nunca foi bom, por aí além, ser-se criança. Até porque o mundo das pessoas crescidas faz com que uma criança trema, de medo e se encolha de susto. Começando pelo facto delas serem... crescidas. E continuando pela maneira como espelham, nos olhos, coisas, por vezes, más e terríveis (ou tristes de morrer), que fazem com que quem seja pequeno se sinta, vezes demais, pequeno em demasia. E porque as pessoas à nossa volta falam para nós, elogiam-nos e tudo mas, depois, todas as suas perguntas em relação a nós se resumem a: "Então, e tu portas-te bem?..." e a "Como é que vai a escola", como se entre os problemas de comportamento e o nosso trabalho não existíssemos em mais nada aos olhos deles. Mesmo que, com isso, nos tornem insignificantes; sempre que parecem não perceber quase nada do que passa connosco.

Nunca foi bom, por aí além, ser-se criança. Porque somos - é verdade que sim - o centro do mundo dos nossos pais. Mas nem sempre eles são capazes de nos levarem pela magia adentro e fazer com que sejam o centro do nosso. O que só acontece quando eles imaginam e fantasiam connosco. E ficam de cabeça na lua! Mesmo quando ficamos agarrados a eles e não saímos do aconchego do seu colo. Às vezes, parece que os pais supõem que precisamos da sua companhia a todas as horas; mas não é não é assim. Do que gostamos - mesmo! - é de os termos de coração desabotoado e sem nuvens nos olhos. O que é difícil. Por mais que só quando duas pessoas se dêem sem barreiras os milagres aconteçam.

Nunca foi bom, por aí além, ser-se criança. Porque somos curiosos e gostamos de aprender; e isso é bom. Mas não nos dão tempo para nada disso. Nem, sequer, nos dão as oportunidades para sermos crianças. Muitas vezes, os pais parecem ter crescido com medo da infância. E, ao mesmo tempo que nos amam, contaminam-nos com ele. Por isso, deixem de nos tratar como se fôssemos o melhor do mundo. Porque, se fosse assim, muitas crianças não cresceriam inseguras por serem crianças. E, por favor, nunca se esqueçam: ser criança só é o melhor do mundo quando somos o melhor mundo para alguém. Na verdade, quando a infância tiver sido o melhor para quem somos o melhor do mundo. E é aí que tudo se complica.

Afinal, o desconhecido é um horizonte quase insignificante sempre que duas pessoas caminham uma para a outra. Que importância tem o infinito em relação a tudo aquilo que não sabemos se quando duas pessoas, quando se amam, são o horizonte uma da outra e aquilo que constroem é o seu infinito, ao mesmo tempo?