«Não adianta proibir a tecnologia se a alternativa é ficar a tarde toda no sofá»


As crianças estão cada vez mais ligadas à tecnologia e, por vezes, os pais não são o melhor exemplo. Paulo Oom, pediatra e autor de vários livros sobre infância, falou com a Notícias Magazine sobre a idade ideal para o primeiro contacto com os écrãs e a importância dos pais neste processo.

O especialista explicou que têm de ser os responsáveis pela educação das crianças a ser os modelos a seguir. Estão os pais preparados para isso?

Qual a melhor forma dos pais prepararem os seus filhos para as tecnologias?
Em primeiro lugar é darem o exemplo. As crianças usam muita tecnologia porque os pais também utilizam. Depois, em crianças até aos cinco/seis anos, é importante que os pais controlem minimamente. Em relação aos mais velhos, adolescentes, é essencial criar atividades alternativas.

Como por exemplo.
Alternativas que possam estar ligadas ao ar livre, à cultura. Não basta dizer que só podem jogar duas ou três horas de consola, se depois a criança fica no sofá. Têm que se divertir.

Qual a idade ideal para as crianças terem acesso a écrãs?
O ideal é que até aos dois anos a criança não tenha qualquer contacto com ecrãs. A partir dessa idade, o mais sensato é que esteja, no máximo, uma hora por dia. Mas esta hora é importante que seja partilhada com os pais, para que estes consigam direcioná-los para o que é importante e até fazer a ponte para a vida real. A partir dos seis anos, já se pode liberalizar um pouco, apesar de nada ser mais estimulante como o contacto com os pais.

Até onde vai o limite de privacidade destas crianças?
No caso dos adolescentes é diferente, porque já têm telemóveis. Mas nas crianças mais novas, aquilo que é recomendado é que os computadores, por exemplo, estejam em locais públicos da casa, para que a qualquer momento um adulto possa ver o que estão a fazer.

Mas os adolescentes gostam de se fechar nos quartos e ter a sua privacidade.
Sim, aí, como é óbvio, não se pode proibir. A função dos pais será sempre criar alternativas em que a tecnologia não entre. É muito difícil controlar o que os adolescentes veem, mas os pais têm que perceber que vão ser o exemplo que eles vão seguir. O problema é que os pais controlam tudo quando a criança é pequena e depois vão perdendo esse controlo à medida que vão crescendo. No entanto, eles continuam sempre a ser uma grande influência.

Devem impor algumas regras?
São difíceis mas devem ser impostas em alguns momentos. Não utilizar o telemóvel durante as refeições ou quando o jovem se está a preparar para ir dormir são algumas que devem aplicar. Mas, mais uma vez, o melhor será sempre dar o exemplo.

É errado os pais darem mais tempo às crianças no tablet/telemóvel em troca da realização de algumas tarefas?
Nada disso é errado, desde que não seja a única forma de os compensar. Deve haver outras compensações em relação à realização de tarefas, além de lhes darem mais tempo com tecnologia.

Como pediatra, sente que é mais difícil passar estas ideias de «bom comportamento» tecnológico aos pais ou aos filhos?
A ambos. Mas isso sempre foi assim no que diz respeito a crianças. Na alimentação, por exemplo, ou na importância do desporto, também é assim. Todas as regras que achamos que devem ser feitas têm de ser adotadas em família. Não conseguimos ter uma criança magra se os dois pais forem obesos.

Autoria: Paulo Oom - Pediatra e autor de vários livros sobre infância