Manhas e manias? Eu?!


Às vezes não fica muito claro quem é pior... os pais ou os filhos

1. Não é verdade que as crianças tenham manhas! É verdade, sim, que, sempre que os pais as chamam, elas respondem "já vou!..." um ror de vezes e que, embora eles desconfiem que essa seja uma forma delas os mandarem sabe deus para onde, em português suave, isso só quer dizer: "o que é preciso, é calma!".

E é verdade que quando solicitadas para uma ajuda, mesmo das mais pequeninas, resmungam sempre, com maus modos: "sou sempre eu!..." (não que nunca estejam dispostas para ajudar mas porque não querem ficar com esse privilégio só para si). E é, ainda, verdade que amam arrumar o quarto, a pasta ou os brinquedos mas que, se não o fazem mais vezes, é porque o sol, quando nasce, é para todos (e não é justo que companheiros tão dedicados, de todos os dias, não se bronzeiem pelo chão). E é, finalmente, verdade que, sempre há algum arrufo lá em casa, elas dizem "foi ele!". Mas não é por falta de sentido de responsabilidade! Serve, unicamente, para pôr à votação mais uma moção de confiança, relativa ao bom senso dos pais (que, vá-se saber porquê, acaba sempre chumbada).

2. E, muito mais, não é verdade que as crianças tenham manias! As crianças são bocas tão abençoadas tanto para os cereais como para as gomas. E nunca contestam a sopinha de espinafres. E recomendam a todos aquelas paparocas de banana e de laranja azeda, todas esmigalhadas. E adoram as sestinhas, mesmo que não sintam, no mais fundo de si, uma vocação infinita para estarem, de barriga para o ar, a olhar para o boneco. E votam sempre no soninho, pelas nove da noite, para acordarem bem dispostas. E nunca hesitam em despachar-se, pela manhã, quando se trata de ir para a escolinha, brincar com os amiguinhos. Embora reconheçam que lhes dá uma irritação... zinha, isto dos pais falarem de sestinhas, de sopinha, de soninho, de escolinha e de amiguinhos... E de papinhas, claro. Mas as crianças são cabeças abertas em relação às manias dos pais!...

3. Aliás, as crianças adoram todos os pais que justificam, que explicam e que negoceiam qualquer regra. Elas reconhecem neles a melhor das intenções e afiançam que, se os desafiam a torto e a direito, isso se deve ao modo como a tentação as leva ao engano, um ror de vezes, e nunca - mas nunca, mesmo - por reconhecerem nesses pais um lado (entre o bonzinho e o totó) que "metem no bolso", todos os dias.

4. E aprovam e aplaudem todos os pais que ora acham que elas nascem, hoje, mais inteligentes, como aqueles que, depois de vincarem que têm medo só de pensar nessas coisas, falam de alguém que lhes disse que o seu rebento seria... "sobredotado". Na verdade, as crianças reconhecem que, se hoje parecem mais expeditas e desembaraçadas, é porque os pais fazem melhor uso das suas qualidades e não as maltratam tantas vezes (ao contrário dos seus avós e de muitas escolas que baralhavam educar com domesticar). Mas, ainda assim, se os pais pensam uma coisa dessas, quem são as crianças para os desenganar? Afinal, de cada vez que eles se babam de vaidade para os dotes que uma criança traz, no seu equipamento de base, para a malandrice, ela conquista mais dez centímetros de capacidade negocial e, muito ao jeito de "a luta continua", a vitória será certa quando se tratar de pais e filhos terem uma conversinha sobre a sopa - que "sabe mal"- ou sobre a hora de deitar.

5. As crianças acham, inclusivamente, muito bem que haja quem ande por aí a afirmar que elas têm uma personalidade muito forte. E agradecem imenso que ninguém repare que uma personalidade muito forte é uma fórmula cheia de twist para os pais falarem da teimosia "até à quinta casa" com que, contra a vontade delas (logo se vê), se dá uma volta tão grande na cabeça que, mal as crianças reparam, se engasgam com protestos, com birras e com amuos. Bem vistas as coisas, elas só têm uma personalidade muito forte porque adoram - mais que as pessoas crescidas (ao que parece...) - as decisões irrevogáveis...

6. E agradecem, também, muito efusivamente, a todos os pais que acham que elas são talhadas para a liderança. "O meu filho é um líder!" é das qualidades de que elas mais gostam em si, porque - falando mal e depressa (e por mais que, de vez em quando, essa qualidade natural para mandar faça com que uma criança vá de mandona, em casa, a mandada, no recreio) - esse seu jeito para a liderança é tudo o que faz de cada família uma democracia de sucesso: as crianças transformam-se nos "grandes educadores da classe operária" (aqui representada pelo esforço braçal dos pais a arrumarem tudo aquilo que, qual hora de ponta, elas estacionam, em segunda e em terceira filas, pelo chão); os pais numa espécie de patronato, cheio de vícios - que depois de, outrora (também eles...), terem a ideia de ter nascido para mandar - aprendem, qual "choque de mentalidades", que "a reação não passará"; e a família (quem disse que a vida não é uma revolução permanente?...) transforma-se numa democracia do proletariado, onde os mais pequenos instruem os pais para os canais televisivos dedicados aos bebés e às crianças, os tablets são alvo de ocupações selvagens por uma trupe de dedos pequeninos que fazem tremer de receio qualquer écrã à prova de choque, e os fins de semana ganham o glamour de serem sempre (mas sempre é... sempre!) preenchidos com programas para as crianças (que isso dos pais descansarem, lerem o jornal, passearem e - oh vício!... - namorarem, são tiques duma burguesia parental que deve ser vergada aos grandes desígnios das crianças).

7. Já o que apoquenta todas as crianças são os pais stressados. Reconhecem que, quando lhes dá para as acharem cheias de manhas e de manias, a mãe faz de "chata oficial lá de casa", e se esganiça, e o pai de graduado da PSP, que distribui coimas como se fossem rebuçados, sem sequer saber qual terá sido a infracção. Mas reconhecem nesses belíssimos exemplos qualquer coisa de radical que faz dos pais os verdadeiros gurus da má disposição, com os quais se aprende sempre um pouco mais a fazer figuras... tristes (tais como quando um diz: "estás a educar bem os teus filhos, estás!...", e o outro responde: "um destes dias, tiro férias de vocês todos e, depois, quero ver como é que é!"). Só mimos, paz e amor, portanto! Mas as crianças compreendem porque é que todos os pais "perfeitos" são stressados... Porque em vez de serem pais funcionam, ainda, como se fossem filhos exemplares. E porque veem na autoridade que têm hoje a melhor forma de fazerem, ao pé dos filhos, as birras que foram engolindo, diante dos seus pais. Seja como for, as crianças desconfiam que, à medida que crescem (ou sempre que têm um pouco mais de poder, por exemplo) os pais se acham com direito de caprichar nas birras. E isso é concorrência desleal!

8. As crianças gostam de verdade dos pais quando eles se zangam. Claro que dispensam aqueles que as empanturram com "pagamentos por conta" e que, em caso de dúvida, castigam, por antecipação. E passam bem sem aqueles que são muito bons a reagir, porque nunca definem, antes, uma regra, por mais que façam sempre de donos da bola. E, se fosse por elas, despediam aqueles que só se zangam de vez em quando, com juros, porque (na verdade) são uns baralhados. Do que elas gostam mesmo é dos pais que fazem contratos, que colam no frigorífico, porque isso dá não só um toque de cor à cozinha como não deixa de ser uma atitude, um bocadinho desesperada, de quem já não acerta uma quando manda. Agora, o que as magoa é que haja quem diga que elas são dadas às manhas e às manias. Uma criança tem direito a ter brio, integridade moral e mais, ainda, tem direito ao seu bom nome! E se, porventura, muito de vez em quando, e contra a sua vontade, irritam os pais... isso não são nem manhas nem manias: é inteligência, personalidade e espírito de liderança. Que só não corre melhor porque os pais são uns stressados que põem a cabeça em água a quem os tem de educar a toda a hora.