Maltrato fetal: sabe o que é?


Pensar-se no maltrato fetal, é pensar em matérias tão importantes como a vida humana, nos seus direitos fundamentais e na legitimidade com que é colocada em risco por condutas, consideradas de risco, por parte de quem à partida, deveria protegê-la: a mãe.

Durante muito tempo acreditava-se que o feto vivia num mundo isolado, impenetrável e inacessível. Desmistificada esta ideia, sabe-se hoje, que tanto o fumo, como o álcool ou as drogas e qualquer outro tipo de substâncias ingeridas pela mãe, atingem o feto.

Por outro lado, e embora menos visível, a verdade é que as emoções vividas durante a gravidez podem também interferir com o desenvolvimento do prénato, sendo aqui também, objeto de análise.

No seu conjunto representam um agregado de situações que vêm alterar o ambiente intrauterino, no qual o bebé se está a desenvolver e a formar, com implicações, quer físicas como psicológicas, constituindo-se assim, como maus-tratos fetais.

O estudo de 158 profissionais de saúde

Foi uma investigação desenvolvida como estudo exploratório que surge como preliminar no que concerne às situações de maltrato fetal. O estudo envolveu 158 profissionais de saúde que foram interrogados acerca desta temática a partir de um questionário construído para o efeito.

O maltrato fetal abarca, desta forma, todo o conjunto de comportamentos de risco que de forma deliberada são infligidos ao feto, o que é corroborado pelos dados fornecidos. Esta forma deliberada e intencional poderá encontrar fundamento no cruzamento dos comportamentos de risco com a vivência da maternidade. "A maternidade não passa necessariamente por uma gravidez, como também desejar um filho não implica forçosamente ter desejos de maternidade" (Leal, 1992 cit in Bayle, 2006). A gravidez e a vivência da mesma implica a atualização de afetos e representações, a gestão de angústias e de conflitos o que torna esta fase particular, designadamente no que respeita à organização psicológica. "A manifestação de desejos contraditórios não assumidos pode dificultar posteriormente a aceitação do bebé" (Bayle, 2006). A transição para a maternidade implica que a mãe se identifique com a sua própria mãe, com a relação precoce que teve com ela e a gravidez acaba por ser, deste modo, um meio de identificação e projeção. Poderá ser um momento de "reconciliação com a mãe, protegendo a criança de factos maléficos e impedindo que ela tenha sentimentos negativos como ela própria teve quando criança, mas também dar vida é privar a sua mãe de fecundidade e empurrá-la para outra geração. Por vezes desejos de morte inconscientes podem manifestar-se, sobretudo se a rivalidade com a mãe ainda existe" (Bayle, 2006).

O bebé ao funcionar em espelho acaba por ser o alvo destas projeções, de todas as angústias e ambivalências, o que poderá justificar de algum modo os comportamentos deliberados da mãe em relação a ele.

Como já foi devidamente exposto, qualquer forma de maltrato fetal irá ter implicações graves futuras, não só no desenvolvimento saudável do feto como também em manifestações durante a infância. Neste sentido, perante as competências do feto, já anteriormente descritas e do seu desenvolvimento neurobiológico, parece ser legítimo falar em conceptualização mental no feto.

Para Damásio (2000), as representações neurais disposicionais do genoma e da epigénese fetal, guardadas em estado de dormência são um padrão potencial de actividade sintonizável com a necessidade de configurar, na relação, um esboço de imagem guardado na memória com uma solicitação que o meio mobilizou. Deste modo, pode-se falar de pensamento e memória fetal na medida em que esta última irá prolongar no pós-parto a qualidade relacional do útero.

Se tivermos em conta que a vinculação começa ainda antes do nascimento e "alicerça-se em relações anteriores com o feto em desenvolvimento" (Brazelton, 2004), é compreensível que o bebé se proteja e reaja a um conjunto de agentes agressores, manifestando-se somaticamente através da inibição de funções biológicas o que está diretamente relacionado com a expressão dos estados emocionais observáveis com o nascimento. Neste sentido, acaba por se verificar um conjunto de consequências futuras, orgânicas e comportamentais, que colocam em causa um crescimento harmonioso.

Para finalizar, e neste contexto, constata-se a importância de uma abordagem multidisciplinar a par com políticas de sensibilização mais eficazes para os riscos de determinados comportamentos durante a gravidez.

Autoria: Leandra Cordeiro Docente na Escola Superior de Educação de Viseu; Psicóloga Clínica: exerce Clínica Privada no Centro Pediátrico e Juvenil de Coimbra e na CLIVIDA, Viseu Colaboradora do Instituto Superior Miguel Torga (membro do Núcleo João dos Santos)