E o tempo livre, Senhores?

01-05-2018

Podem crianças cansadas tornar-se pessoas melhores?

1. Compreendo que a ocupação das crianças seja uma preocupação para todos os pais e que, em função dela, a escola possa ser uma resposta. Mas será motivo de sossego podermos ter crianças que passem 55 horas, por semana, na escola?

2. Como pode um país que discute a reposição do horário de trabalho da Função Pública em 35 horas semanais conviver com naturalidade com um "horário de trabalho" de 55h por semana de algumas crianças? Dir-se-á que não é trabalho? Como se aqueles que, por vezes, reagem mal ao casamento entre aprender e brincar achassem que há áreas - que não aquelas que se vão considerando fundamentais para a aprendizagem - que serão lúdicas (mais próximas, portanto, do brincar) e que, portanto, não cansam, não exigem esforço, nem são trabalho.

3. Contando com o caminho de casa para a escola, e vice-versa, haverá crianças que passam 13 horas por dia (mais ou menos) em relação com o seu espaço de trabalho. Se aos adultos são admitidos sintomas de burnout (que se traduzem em exaustão e sentimentos de confusão em relação a si e aos outros) que interferem com toda a sua vida, quando trabalham demais, e se se tem como provado que 55 horas de trabalho por semana aumenta, em relação a eles, o risco de enfarte, porque é que, ainda assim, tantas horas de trabalho e de aprendizagem são saudáveis ou inócuas para as crianças? E porque é que não merecem reservas? E porque é que tem de ser o horário de escola de muitas crianças a adequar-se aos horários de trabalho dos pais e não o contrário? E onde está o empenhamento de todos nós para se encontrarem alternativas (no direito do trabalho relativo aos seus pais, por exemplo)? E porque é que, quando crianças se desligam da escola, não se fala de exaustão mas, antes, surgem, como "sobretaxa", os défices de atenção?

4. Será de esperar de quem passa 11h numa escola mais amor pelo conhecimento, mais sabedoria e melhores resultados escolares ou, pelo contrário, mais "funcionalismo", mais enfado e menos paixão, quando se trata de viver a escola (e tudo aquilo que ela oferece) neste regime aparente de semi-internato?

5. Será que mais escola quererá dizer melhor escola? E que mais informação será, por inerência, mais sabedoria?

6. Será que o mesmo espaço, o mesmo perímetro de regras, os mesmos colegas, os mesmos grupos, os mesmos funcionários trazem mais ganhos ao crescimento das crianças que a oscilação de grupos, de colectividades ou de clubes, de pessoas de referência ou de colegas (nem que, para tanto, a escola funcione como uma "agência" que, através de protocolos, coloque as crianças em locais e actividades diferentes com a ajuda das autarquias)?

7. E pode uma escola que, nalguns casos, entre aulas de 90 minutos tem recreios de 5, e onde há cada vez mais recreios tutelados pelos pais (para que as crianças não corram, não gritem e não sejam amigas do espalhafato), fazer bem ao deixar que muitas destas 11 horas sejam, quase todas elas, de contenção, contenção e mais contenção?

8. Tenho consciência que as regras de muitas entidades patronais pressupõem que mais tempo no local de trabalho trará melhores desempenhos profissionais (e, portanto, que nem sempre o rendimento no trabalho seja acompanhado por jornadas mais curtas e melhor geridas), o que, já de si, é pouco razoável. Mas será legítimo que se pergunte se é sensato que a vida das crianças reproduza esses erros e se resuma a uma "sanduíche" do género mais-escola/pior-família. Aliás, imaginando que o caminho da escola até casa se possa estender entre 30 a 60 minutos, e pressupondo que as crianças tenham direito a tomar um banho, de fugida, às 20:30h, será que (na melhor das hipóteses!) uma hora diária de família, entre as 21 e as 22 horas, de segunda a sexta, será razoável para que pais e crianças se conheçam, mutuamente, e cresçam uns com os outros?

9. Se, há muito tempo, quando as aulas eram só de manhã, os trabalhos de casa (em forma e tamanho prudentes) poderiam ter todo o sentido, onde passarão eles a caber na vida destes "turbo-alunos"? A seguir ao jantar? E com que mais-valias, afinal? E onde caberia estudar: passear nos livros depois de os passear? Ao fim de semana?

10. Por mais que a vida de muitas famílias possa não ser fácil (não é!), será prudente dar à escola mais esta função de "atelier de tempos livres"?

11. E como se pode compreender, neste contexto, o comportamento dos pais? Por um lado, há aqueles que iriam desesperar ao deixar os filhos em "autogestão" ou na rua e, assim, passarão a tê-los protegidos na escola. Por outro, haverá pais que, podendo ter os filhos consigo, irão usar (até à exaustão) estes tempos colocados ao seu dispor. E há, ainda, as crianças que, tendo famílias desmembradas, podem ter na escola a "protecção de menores" que não teriam noutras circunstâncias. Se os primeiros merecem ser protegidos por leis do trabalho mais amigas da família, os segundos mereceriam ser considerados negligentes, retirando-se daí as respectivas consequências. Já o terceiro grupo de crianças precisaria, primeiro, de ser protegido da sua família para que, depois, seja protegido; outra vez. Mas será razoável que nem tudo se pondere quando se trata de "desenhar" uma medida transversal a todas as crianças?

12. Não pode uma medida como esta ir em "contramão" com outra gestão mais ponderada dos tempos escolares (de muitas escolas, por exemplo, onde as aulas já terminam às 15:30h)? Não pode uma medida como esta acabar por promover mais as discrepâncias e as oportunidades entre crianças desfavorecidas e crianças com recursos económicos, ao contrário daquilo que a bondade da ideia, certamente, consideraria?

13. Não é legítimo perguntar se esta resposta, que pode parecer prudente na sua intenção, não estará a tornar os "tempos livres" das crianças um bem em vias de extinção? Não terão os tempos livres de ser livres, por maioria de razão, e não será razoável deixá-los ao bom uso que as crianças entendam fazer deles, sob o olhar atento dos seus pais ou dos seus avós? E onde fica o brincar? Não será ele um património da Humanidade? Não devia, aliás, merecer uma protecção ainda mais empenhada e tão digna como aquelas que o fado, o cante alentejano e tantas outras preciosidades humanas têm vindo a merecer?

14. Pensando, unicamente, nas crianças - na sua saúde, no seu desenvolvimento, na relação com a escola, com a família, com as pessoas, com o mundo e com o futuro - não seria altura de nos perguntarmos todos o que queremos fazer do crescimento delas, encontrando medidas que lhes tragam o imenso privilégio de aprender e, ao mesmo tempo, o "direito constitucional" de serem crianças quando devem ser, trabalhando (todos nós!) de forma empenhada para que esse talento nunca se perca, sempre se acarinhe, sempre se preserve e, para nosso bem, que sempre nos interpele?

15. Que sentido tem existirem pais que, ao mesmo tempo que reconhecem terem tido uma infância muito mais feliz que a dos seus filhos, não se juntem para mudar o mundo das crianças, na sua relação com a escola? Fará sentido que nos transformemos todos numa "maioria silenciosa" que convive com esta "unanimidade" sem que se encontrem alternativas que acarinhem a escola, aconcheguem os miúdos no teatro, na música e no desporto, por exemplo, mas sem que ninguém se esqueça da importância que os tempos livres e o brincar têm para que o superior interesse das crianças tenha vistas largas?

16.. Como se podem criar crianças que passam tantas horas dentro do espaço da escola e esperar que elas ponham garra, engenho e paixão nos seus gestos, quando se trata de serem pessoas melhores?

17. Podem crianças cansadas tornar-se pessoas melhores?

Autoria: Eduardo Sá | eduardosa.com