"Contra" os pais "muito modernos"

06-11-2018

Que parecem aderir a soluções rápidas e adocicadas esquecendo o seu "lado animal"

Que fique claro: eu entendo que os pais são os nutrientes mais ricos e mais equilibrados para as crianças. Mais que o leite, a carne, a fruta ou os vegetais. E entendo que não há como ficar obeso de pais. Porque os pais têm uma espécie de auto-regulação fantástica que faz com que as crianças possam "pecar", "exagerar" e outras coisas desse género - "ingerindo" sempre um bocadinho mais de pais - que, no final, ficam sempre mais robustas e mais saudáveis. Só sou um bocadinho "contra" os pais "muito modernos".

Daqueles que se cercam de manuais e testam todas as "fórmulas de sucesso" e mais algumas - em relação às birras das crianças, à proibição de se esganiçarem e de gritarem ou em relação aos "nãos" em que devem poupar - em vez de escutarem o seu "sexto sentido" e porem o bom senso e a sua "convicção de pais" a puxar por eles.

Daqueles que tratam as crianças como peças de porcelana Companhia das Índias e que as pretendem quase "bacteriologicamente puras", em vez de admitirem que elas precisam de andar à bulha de vez em quando, de brincar na rua e de se esquecerem das horas, um ror de vezes. E daqueles que, sendo amigos do ambiente, não deixam as crianças sujar-se.

Daqueles que acham que as crianças vivas são hiperactivas e que a algazarra das crianças é poluição sonora. E que supõem que as crianças saudáveis não são cabeças no ar, não andam na lua, não são "malandrotas" e não guardam para amanhã todas as coisas, sobretudo aquelas que são um bocadinho chatas, que os pais lhes exigiram ontem.

Daqueles que acham que a escola está, sempre, em primeiro lugar, e que a família e o brincar não são compromissos nem mais sérios nem, sobretudo, inadiáveis. E que consideram que o trabalho vem sempre antes - e muito antes - da milenar tentação de imaginar, de fantasiar e de recriar. E daqueles que, querendo lutar contra "o sistema" se refugiam no ensino doméstico sem ponderarem na "escola de vida" que é o recreio.

E daqueles que acham que "o não" traumatiza as crianças e que existirem situações-limite em que elas precisem de ter um bocadinho de medo dos pais as deixa "doentes" e quase os "escandaliza".

E daqueles que acham que as birras são "nervos"; que o lado desafiador das crianças é só uma aragem de rebeldia; e que a insolência acaba por se traduzir por uma salutar manifestação de "personalidade".

Daqueles que acham que o exercício de autoridade dos pais se faz com o auxílio de muitas justificações, de muitas explicações e gastando muito - mas, mesmo, muito - português, como se os nossos filhos vivessem distraídos para nossos exemplos, não nos lessem os olhos, e ignorassem os nossos estados de alma e as nossas convicções, e não se orientassem com isso tudo para construírem as "suas" regras.

E daqueles que tratam os filhos com cerimónia mas sem verdade.

Que fique claro: eu entendo que os pais são os nutrientes mais ricos e mais equilibrados para as crianças. Só sou é um bocadinho "contra" os pais "muito modernos".

Daqueles que eram contra os desenhos animados violentos mas que deixam que as crianças consumam ecrans a todas as horas: quando aprendem, quando brincam, quando jogam, quando se aventuram pelas descobertas ou quando comunicam. E daqueles que consideram que as crianças devem jantar, sempre, antes dos pais (para que haja sossego mesmo que, com isso, não haja família) e, de preferência, adormecer em casa dos avós.

Que fique claro: as famílias modernas são as melhores famílias que a Humanidade jamais criou. Informam-se, planeiam, opinam, intervêm e comprometem-se. Dividem as funções da mãe e do pai. Repartem as responsabilidades parentais e a guarda. Sabem o nome dos professores e dos amigos dos filhos e conversam com eles. E têm nos avós, nas madrastas e nos padrastos uma forma de trazer contraditório às "tolices" dos pais e de se indignarem, saudavelmente, contra uma ideia de família clássica pouco verdadeira, pouco transparente, pouco democrática e muito pouco "família em construção, para sempre!".

Mas as "famílias muito modernas"parecem fugir das suas memórias e dos seus exemplos de família. Parecem consumir todas as soluções rápidas como se educar não fosse difícil e se fizesse sem que fosse necessário muito tempo, muitos erros e muitos "dilemas de pais". E como se a educação duma criança não fosse, como o amor, uma tarefa para a vida. Que não se resolve com uma pitada de técnica, alguma burocracia e num registo fast food. E que se aprende sem dor e sem medos. Quase sem memória. Quase sem futuro. Sobretudo porque é preciso pormos na educação dos nossos filhos um bocadinho do nosso lado animal. E um bocadinho do que a educação duma criança tem de "jurássico". Mais um bocadinho da nossa história. E um bocadinho dos nossos sonhos. E um bocadinho de todos os bocadinhos de cada um dos pais. Para que, "finalmente", os nossos filhos sejam um bocadinho nossos e tenham "o bocadinho" de si que faz com que, mais do que ninguém, eles nos eduquem, nos amem e nos comovam.

Autoria: Eduardo Sá | eduardosa.com