As pistas que a criança dá quando precisa de atenção


Conversámos com Catarina Prior, pediatra do neurodesenvolvimento do Hospital Lusíadas Porto, que esclarece dúvidas comuns, os sinais a que os pais devem estar atentos e como lidar com a situação.

- Quais são as causas mais comuns para que os pais possam não estar a dar a atenção necessária aos filhos?
O facto de na maioria das famílias ambos os progenitores exercerem uma atividade laboral condiciona, necessariamente, o tempo disponível para os filhos.
Por outro lado, os tempos letivos prolongados que atualmente se verificam, a generalização dos "trabalhos para casa" e a frequência, sobretudo nos centros urbanos, de diversas atividades extracurriculares, contribuem de forma acrescida para que a família veja o seu tempo realmente livre francamente limitado.

- Qual é o impacto, na criança, desse comportamento dos pais?
Uma criança que sente reiteradamente que os pais não lhe dão a atenção de que precisa acha que estes não se interessam por ela e/ou pelos seus interesses, e que isto acontece porque não é suficientemente boa para merecer a sua atenção. Isto gera, obviamente, sentimentos de menos-valia e o subsequente desenvolvimento de uma baixa autoestima, com todas as consequências que lhes estão inerentes.

- Quais podem ser as consequências a longo prazo?
São inúmeras e de ordem diversa, naturalmente na dependência do grau de privação a que a criança é sujeita. Estas crianças são emocionalmente carentes, geralmente mais tristes e mais apáticas, com tendência ao isolamento. Outras podem manifestar essa carência evidenciando agressividade, dirigida aos pais mas também a pares, professores e outras pessoas de referência - apresentam dificuldades nos relacionamentos interpessoais em geral.

Por outro lado, a falta de atenção parental gera a ausência de referências, de valores fundamentais a um neurodesenvolvimento saudável, nos diversos domínios, que passam a ser procurados noutros ambientes, como amigos, media, entre outros. Frequentemente esta procura ocorre na ausência de capacidade crítica, tornando a criança vulnerável a influências nefastas ao seu adequado neurodesenvolvimento.

Há uma maior probabilidade de desenvolvimento de comportamentos de risco. Sabe-se que o sucesso académico destas crianças e adolescentes é geralmente menor do que o que o seu potencial cognitivo permitiria.
Na adolescência poderá haver uma procura precoce de relações amorosas, por exemplo, com todos os riscos daí inerentes. A longo prazo os estudos referem a tendência para um menor nível académico, com menor sucesso laboral subsequente. Há também maior risco de disfunção familiar na vida adulta.

- Quais os sinais de alarme mais comuns que demonstram que as crianças sentem falta da atenção dos pais?
Não existe uma manifestação específica desta situação. Existem, igualmente, diversos aspetos - que poderão também traduzir outras problemáticas - mas que são sempre indicadoras de que algo não está bem com a criança. Uma vez mais dependem da sua idade. Nos mais pequenos, birras excessivas e desadequadas à idade, bem como agressividade (auto ou heteroagressividade), constituem frequentemente formas de chamada de atenção aos pais. Se pensarmos um pouco percebemos que não é incomum que as crianças recebam maior atenção quando estão a ter comportamentos desajustados, incorretos: quando uma criança se porta mal, os pais vão parar o que estão a fazer para a repreender; ao fazê-lo, estão a dar à criança a atenção que procurava e, por essa via, a reforçar positivamente o mau comportamento que pretendiam extinguir...

Isolamento, pouca curiosidade e escassa interação com o meio, assim como alterações do sono e do comportamento alimentar habitual, deverão também ser motivo de alerta para os pais, bem como comportamentos de insegurança, como querer dormir com os pais e não querer separar-se deles. O desenvolvimento de medos excessivos pode também ser um sinal de que a criança sente a falta da atenção dos pais.

Em crianças mais velhas e adolescentes, estes sintomas podem também estar presentes, mas também uma dependência exagerada das redes sociais deverão alertar os pais. A diminuição do rendimento académico e o desenvolvimento de comportamentos de risco deverão ainda constituir um sinal de alarme para os progenitores.

- Como é que os pais devem atuar perante esses sinais?
A atuação dependerá, naturalmente, da circunstância. Em todas, contudo, disponibilizar tempo à criança, em exclusivo: estar com a criança "a 100%", conversando com ela, dizendo-lhe o quão importante ela é para si, é fundamental. Poderão começar por lhe dizer que sentem que estão pouco tempo com ela e como o lamentam, e envolvê-la na definição de estratégias para minorar o problema.

Em crianças mais novas, medidas simples como pedir-lhes ajuda na execução de pequenas tarefas domésticas que precisam de ser realizadas, mas podem ser feitas em conjunto: por exemplo, fazer a cama com a ajuda de uma criança pequena pode demorar um ou dois minutos mais, mas nesse período poderão conversar sobre o que se passou na escola ou sobre algo que interesse a criança, melhorando as suas competências linguísticas, diminuindo o tempo de ecrã, promovendo a sua autonomia e simultaneamente demonstrando o interesse que têm nela e nas suas atividades, ainda que existam tarefas que têm que ser feitas; as refeições em família devem ser privilegiadas, sem ecrãs, proporcionando um momento de interação com a criança. O momento antes de dormir também deve ser especial, e neste âmbito a leitura em conjunto de uma história ou de um livro é muitíssimo útil.

Brincar com a criança (ouvi-la, colocar-lhe questões sobre os seus interesses, sobre os seus amigos, realizar atividades em conjunto, rebolar no chão...), mas fazê-lo plenamente - sem estar "com o olho" na TV, email ou numa qualquer rede social - seguindo as suas sugestões de brincadeira e propondo atividades prazerosas que vão de encontro aos interesses da criança, ainda que por dez ou quinze minutos apenas por dia, podem fazer uma grande diferença.

- O chamado tempo de qualidade é muito importante?
Nunca é demais salientar a importância do tempo de qualidade: quando os pais estão supostamente a brincar com a criança ou a conversar com o adolescente mas não largam o telemóvel estão, além de dar um mau modelo, a transmitir-lhe a ideia de que o gadget é mais importante e/ou interessante do que ele/ela. Só a atenção individual a uma criança ou adolescente permite aos pais saberem o que realmente pensa e sente acerca das coisas e do que realmente gosta, e só desta forma poderão ajudá-lo(a) a alcançar os seus objetivos.

Ouvir a criança/adolescente, conversar com ele(a) fá-lo(a) sentir-se importante, sentir que é compreendido(a) e sentir-se seguro(a). Este hábito mantém um canal de comunicação aberto a longo prazo, e é fundamental para um neurodesenvolvimento saudável.
Estas medidas, simples e exequíveis mesmo quando ambos os progenitores trabalham intensivamente, melhoram por si só a relação e a cumplicidade dos pais com os filhos, aumentando a autoridade parental, criando modelos positivos, tornando a criança mais segura e confiante, com melhor autoestima e maior tolerância à frustração, melhorando o seu desempenho académico e social.

- Existem situações em que seja aconselhável procurar ajuda?
Em situações mais graves, a família poderá não ser capaz de, por si só, encontrar e implementar estratégias para a resolução da problemática, sendo importante procurar ajuda. O pediatra e o médico de família poderão orientá-los para os recursos disponíveis que melhor se adeqúem à situação, que poderão incluir o pediatra do neurodesenvolvimento, o psicólogo, o pedopsiquiatra, o psiquiatra e/ou uma terapia familiar.

Autoria: Catarina Prior, pediatra do neurodesenvolvimento do Hospital Lusíadas Porto