Acabem com as princesas antes que as princesas “acabem” connosco

24-11-2018

A linguagem das histórias é perigosa...

Eu recomendo que não se conte às crianças, nunca mais, a história da Carochinha. Afinal, são modos que queiramos para as nossas filhas que, em vez de se inscreverem no "Casados à primeira vista", elas vão para a janela acenar, a um desconhecido, na esperança de que, com um único teste de voz, encontrem o homem das suas vidas? E proponho, também, que a Dama e o Vagabundo sejam excluídos das leituras disponibilizadas para as crianças. Porque é quase como se lhes disséssemos que, para nós, é o sonho de uma vida que uma filha se apaixone pelo primeiro sem-abrigo com quem se encontre, que a seduza não com um relógio, não com uma carreira de sucesso, nem com uma viagem às Caraíbas mas com um simples prato de esparguete. E que, vendo bem, também é razoável que a Branca de Neve entre neste índex de maus-exemplos que não queremos para as nossas filhas. Porque ela se deixou beijar por um desconhecido, no meio do bosque, mesmo que - e isso pende a favor dela - estivesse deitada num caixão, entre o adormecido e o mortificado. Mas, seja como for, devia ter reagido! E devíamos banir a Pequena Sereia porque ela não tinha direito a esse atentado ao equilíbrio ecológico de trocar as barbatanas pela voz e, muito menos, por causa de um grande amor. E a Cinderela, claro, porque não só incentiva as nossas filhas a acreditarem em fadas-madrinha como, a seguir, as leva a imaginar que há príncipes que lutam por elas sem esmorecer (para mais, promovendo sapatos que podiam ser Jimmy Choo ou Gucci, por exemplo, mas que são, simplesmente, de cristal!) e se apaixonam pelo tamanho da sua sola dos pés. E devíamos acabar com A Princesa e o Sapo porque isso de andar às beijoquices aos batráquios não dá com nada. E com A Bela e o Monstro, também, porque ninguém quer uma filha casada com o primeiro homem-elefante com voz de rádio que a enfeitice, algures nos camarins dum teatro.

Vendo bem, devíamos acabar com todas as histórias! Porque, como sabem, as crianças não percebem as metáforas. Elas não entendem que há uma mensagem que as atravessa; não! As histórias são, é claro, formas sexistas de manipular as nossas filhas para que elas fiquem presas a ideias que as acorrentem e discriminem. Só não percebo, mesmo, porque é que foi a geração de mulheres que mais leu estas histórias que foi capaz de se emancipar estudando, trabalhando, intervindo política e civicamente e criando, inclusive, movimentos como o #MeToo!

(É claro, como já notaram, que estou a ser ácido e agreste. E - não! - não estou a ignorar que algumas histórias foram passando imagens da mulher nem sempre justas. Mas presumir que serão as histórias, mais que o exemplo das mulheres mais significativas das suas vidas, quem mais "formata" as escolhas das vidas das nossas filhas, como começa a haver quem proponha, só pode ser um equívoco. Ou isso pressupõe que a linguagem simbólica é um sub-produto das folhas de cálculo, e que, por isso, devia ser banida. Ou, então, das duas, uma: quem recomenda que estas histórias deixem de ser contadas às meninas talvez não se sinta a dar os exemplos mais edificantes sobre o que é ser mulher; ou, então, talvez delegue toda essa formação nos desenhos animados, de forma passiva e sem crítica, e isso não é seguramente o melhor).

Autoria: Eduardo Sá | eduardosa.com