A tribo dos 15


E a sexualidade na adolescência

Se aos 12 o corpo leva um safanão e se "desengonça", dos 14 para os 15 é a cabeça que se sobressalta. Em rigor, entendo a adolescência como o conjunto de transformações psicológicas de adaptação à sexualidade. E, por mais que isso pareça demasiado redutor, é a sexualidade que - mais do que o salto fantástico que se dá, nessa altura, no sentido de se passar dum pensamento modulado para raciocínios abstractos que se ligam a uma capacidade simbólica pujante - traz alterações profundas que marcam o fim da infância.

O despontar da sexualidade faz com que um adolescente, quase de um dia para o outro, passe a evitar o toque afetuoso dos pais e a rejeitar, de forma activa, ser abraçado, por exemplo. Quase toda a proximidade física parece ser "infiltrada" de uma erotização que o assusta. A forma como luta, com sofrimento (e quase com uma aragem de pânico) contra um pensamento que fantasia a sexualidade, e que parece fugir ao seu controle, leva-o a uma agitação grande. E a forma como, por vezes, as relações mais improváveis parecem ser sexualizadas na sua imaginação tornam-no inquieto, inseguro, fugidio no contacto e, aparentemente, "anti-social". Por causa de tudo isto, o grupo dos adolescentes desta idade torna-se mais homogéneo, levando a que as raparigas e os rapazes se separem entre si, e confidenciem, por vezes, com um vocabulário mais rude, aos ouvidos dos pais, com a utilização muito mais frequente de palavrões e a adopção de termos soltos que compõem uma espécie de "dialecto" que, a par do vestuário e das escolhas que realizam, parecem criar uma rede que suporta os sobressaltos da adolescência a chegar à cabeça.

A sexualidade na adolescência não é, de todo, uma experiência fácil. Descobre-se subitamente. O que faz com que um adolescente sensato pareça quase "transfigurar-se" com ela, tornando-se mais impulsivo. Ao mesmo tempo, a forma como se vai da fantasia à experimentação da sexualidade (através de experiências masturbatórias, por exemplo) traz consigo uma atmosfera de culpa com que o adolescente vive muitas destas descobertas, o que - sendo um contraditório muito saudável que, no futuro, modula e baliza a forma irá da fantasias ao acto sexual - se faz acompanhar com saltos de humor desconcertantes, ora acompanhados de um tom áspero e hostil, ora dum registo apático e depressivo.

Como se tudo isto não fosse já muito desgastante, a "tribo dos 15" discorre sobre as contradições dos pais, as funções da família, o sentido da vida, sobre as relações e sobre o amor. E a construção da identidade, para onde todos esses temas confluem, faz-se com movimentos muito amplos e, por vezes, contraditórios de uma ideias para as outras, o que leva a que alguns adolescentes (mais frequentemente, as raparigas) pareçam passar por períodos em que a própria identidade sexual parece ser objecto de dúvidas, de inquietações ou de sobressaltos. Quase todos eles vividos mais ou menos em silêncio, o que torna aquilo a que, por vezes, se chama a "idade dos armário" resulte em atitudes relacionais agrestes que magoam, sobretudo, os pais. E, em particular, o pai do mesmo sexo do adolescente, que ele desvaloriza, desqualifica e desafia, como forma de fazer diminuir a discrepância entre a pessoa a quem mais se identifica e uma "auto-estima" que, por mais que dê a entender o contrário, parece diminuir um pouco mais, todos os dias.

No entretanto, surge o primeiro namoro. Que, quase sempre, não coincide com o primeiro amor. Até porque é frequente que um adolescente "dívida em três" as pessoas importantes para si: a mulher dos seus sonhos, a melhor amiga e a namorada (se adoptarmos aquilo que se passa, regra geral, com os rapazes). Como se dessa forma vivesse o desejo, a cumplicidade e o amor. Sem os "misturar" demais.

Um pouco por tudo isto, inquieta-me a forma como se fala da sexualidade aos adolescentes. Às vezes, parece abordar-se como "educação tecnológica"/parte 2. Às vezes, como "educação moral e religiosa"/parte 2. Às vezes, sendo-lhes dado exemplos de escolhas sexuais que mais os baralham. Às vezes, falando-se da sexualidade com uma naturalidade que os adultos não têm. Mas, raramente, havendo quem lhes fale do turbilhão de descobertas que, ao mesmo tempo que os levam a deixar de sentir-se crianças, em muitos momentos, os assustam, os desorganizam e os atormentam. Sem ninguém lhes "pôr legendas" numa conquista que, sendo preciosa para eles, cresce com demasiados "não-ditos" e muitos mal-entendidos. Onde as conversas dos adolescentes entre si parecem ser, mais do que a maior das conversas dos adultos para com eles, a mais sensata e a mais esclarecida educação para a sexualidade que eles têm. E se for (só) assim, é mau.