A tortura do sono

04-06-2018

A mãe não dorme. Só dormita

É curiosa a forma como uma grande maioria das mulheres reage em relação ao sofrimento que qualquer mãe vive quando o seu bebé, muito pequenino, acorda de hora a hora, numa noite. São raras as mães que, em circunstâncias destas, são abertamente solidárias e falam de tudo de mau que sentiram. Regra geral, abordam esse assunto como que se, quando foi com elas, o sono do bebé tivesse sido difícil, sim, mas, de modo algum, se parecesse, em quaisquer momentos, com uma tortura. E de tal forma assim é que as mães mais recentes se sentem na categoria de «más mães»: aquelas que adoram um filho mas se sentem consumidas por ele; se deslumbram com a sua beleza e temem que ele dê com elas em «doidas»; ou se comovem com as «gracinhas» de um bebé (quando ele sorri a dormir, por exemplo) e confidenciam à sua melhor amiga que, às vezes, quase têm vontade de «o atirar pela janela».

Um bebé pequenino é o grande responsável pela «tortura do sono» que qualquer boa mãe acaba por sofrer. Uma mãe não pode reagir, de forma equilibrada e bondosa, quando, depois de dar de mamar uma imensidão de tempo, muda uma fralda; muda-a, de novo; troca o babygrow (que, entretanto, se sujou); deita, delicadamente, o bebé, e aconchega-o, com todo o amor; ele faz uns barulhinhos ternurentos e, como um anjo, decide dormir. A mãe respira fundo, sorri-lhe, apaga a luz e desliza sob os lençóis, pensando que a vida é bela, para que, 40 ou 50 minutos depois, escutar um ligeiro protesto e, a seguir, uma rebelião que resiste ao embalamento do berço e, logo depois, um choro de raiva que não pára? Como reagem as boas mães?... Abrem a luz. Respiram fundo. Falam do seu amor por aquele pingente. Levantam-no, cheias de cuidado. Puxam da mama (sim, porque as boas mães e a chucha estão, regra geral, numa relação difícil). O bebé, entreabre um olho, para se certificar que aquela «mãezona» está ali, firme, só para ele. Respira como quem diz: «É verdade! Deus existe». E adormece às primeiras mamadas. A mãe, quase sem respirar, encosta-se à cama. Deita-o sobre si. Encanta-se a olhar para ele. Fala sozinha (todas as boas mães falam sozinhas, é verdade!) e repete: «Tão lindo!», e outras coisas que querem dizer que nunca se cansa de o amar. E fica por ali, dormitando, agarrada ao seu amor. A seguir, certifica-se que ele dorme. Deita-o, delicadamente. Aconchega-o, com todo o amor. Ele, como anjo, decide dormir. Ela respira fundo. Sorri-lhe. Apaga a luz. E tenta, de todas as formas, dormir. Mas não é fácil! 40 ou 50 minutos depois, escuta um ligeiro protesto. E, a seguir, uma rebelião que resiste ao embalamento do berço. Logo depois, um choro de raiva que não pára. Abre a luz. Respira fundo. Fala do seu amor por aquele pingente. Levanta-o, cheia de cuidado. Puxa da mama. O bebé, entreabre um olho. Mama uma ou duas vezes. E adormece. A mãe encosta-se se à cama. Deita-o sobre si. Encanta-se a olhar para ele. Respira fundo. Sorri-lhe. Apaga a luz. Desliza sob os lençóis. E, 40 ou 50 minutos depois, escuta um ligeiro protesto e, a seguir, uma rebelião que resiste ao embalamento do berço. Logo depois, um choro de raiva que não pára. E tudo se repete 4, ou 5 numa noite.

Às seis da manhã, mãe e bebé adormecem. Finalmente! O bebé certifica-se que, nem no silêncio da noite e no escuro, a mãe lhe foge. E descansa. Às 7, o irmão mais velho entra no quarto, transbordando energia. O pai toma o seu duche. E a vida continua. Nos próximos 30 ou, até, 60 dias tudo será mais ou menos assim. O dia segue, entretanto, no seu bulício. A mãe veste o irmão mais velho do bebé. Depois dele reclamar, claro. Antes, deu-lhe o pequeno-almoço, porque tanta privação de mãe tem os seus custos. Tolera uma espécie de birra quando se separam. E propõe-se respirar fundo. Senta-se a ver as notícias. E a dormitar. (É verdade: a mãe não dorme! Só dormita.) Logo depois, escuta um ligeiro protesto. A seguir, uma rebelião que resiste a qualquer embalamento. Logo depois, um choro de raiva que não pára. Puxa da mama. Fala do seu amor. E tudo recomeça. Até à próxima vez. O sono, esse virá mais tarde. Quando puder chegar, claro. Por agora, reage. Funciona. Chora por nada. Enfurece-se por coisa nenhuma. Diz coisas horríveis, só para si. Sente-se insuportável consigo própria, por tudo isso. E imagina, quando fala com as outras mães, que isto só lhe aconteça a si. Entretanto, os dias repetem-se. Iguais. Iguais. E iguais!

Querem perceber aquilo que se sente quando se fala de tortura do sono? É simples. Falem com a mãe. Ah!, e já agora, admirem-se. Como é possível uma pessoa «torturada» desta forma não se desequilibrar ainda mais? Basta ser mãe!

Autoria: Eduardo Sá | eduardosa.com