A propósito da importância da auto-estima dos adolescentes - Todos temos o que precisamos cá dentro. Só que precisamos que alguém faça de espelho e nos mostre o que é.

14-05-2018

Cresci com o meu pai. A avó e o avô ajudaram e fiquei lá quase sempre aos fins-de-semana. A minha mãe, sem que eu percebesse o que era "partir para sempre", partiu de repente... E para sempre. A verdade é que me fez falta desde o momento que partiu. Era ela que nos mostrava o caminho, que iluminava a casa e apagava os sítios que não interessavam, fazendo com que não víssemos o que estava mal.

Quando partiu, deixámos de ter a iluminação da casa e a escuridão no que não interessava. Ficámos sozinhos, o meu pai refugiou-se no trabalho, dia após dia, por vezes até à noite e eu habituei-me a ter, desde pequenino, de acordar sozinho, fazer o meu pequeno-almoço e ir para a escola. Precisava de atenção e mimo, mas o meu pai passou a silenciar as emoções, ou se calhar nunca lhes deu voz, só que a minha mãe tirava a luz desse facto, para que eu não notasse. O meu pai dizia-me que tinha de cumprir, mas nunca ninguém me ensinou a fazê-lo. Eu não aprendi a chorar, até porque não tinha quem me limpasse as lágrimas, por isso substitui as lágrimas por desafio, oposição, desinteresse e perturbação nas aulas, para que não me abandonassem e assim o meu pai não parasse de olhar para mim. 

Fui aumentando em altura e também em comportamentos maus e negativas. Diziam que tinha de tomar medicação para ter atenção e estudar, mas na verdade, eu não percebia para quê, não tinha jeito nenhum para aquilo, não fazia ideia do que era suposto fazer e provavelmente não ia saber fazer.

Autoria: Rita Castanheira Alves - Psicóloga dos Miúdos [artigo completo]