A mãe não exige que sejas o melhor. Só que tenhas positiva!

Vamos falar sobre os adolescentes de 15 anos que passeiam os livros e são incansáveis a fazer projectos?

(...) O meu filho de 15 anos será, entre todos os meus filhos, aquele que me parece mais capaz de ter bons resultados escolares. Mas, ao contrário dos irmãos, não se envolve, limita-se a passear os livros e assume um lado "gozão" que já lhe deu algumas dores de cabeça com alguns professores. Não aceita um não. Lida mal com a frustração. Não estuda. Mas passa a vida a fazer projectos. Acha que é normal?...

Partindo do pressuposto que esta não é uma resposta clínica, nem pretende substituí-la, permitam-me conversar um bocadinho sobre este tema tão comum entre as preocupações dos pais.

Vamos aos adolescentes de 15 anos que passeiam os livros e são incansáveis a fazer projectos ... Regra geral, estão equipados com um excelente "motor". E resultados aquém daquilo que seria de esperar. Receio que esta "discrepância" entre o "motor" e as suas performances signifique que teremos, a todos os níveis, "dois lados" dentro de cada um deles: um, inteligente, tenaz e brioso, em muitas áreas; e um outro, um bocadinho "batoteiro", em todas as circunstâncias em que possam sentir que correm o risco de não terem um sucesso "imediato", "fácil" ou com retorno inequívoco. Repare que talvez eles não lidem mal com a frustração - como muitas mães, às vezes, afirmam. Na verdade, ninguém lida bem, não é? O que se passa é que vão a jogo com tamanha insegurança que, sem querer, acabam por "bloquear" ou, de certa forma, "engasgar-se".

Este último lado deles, em contexto de avaliação (em sala de aula ou, mesmo, numa relação de face-a-face com um ou outro professor e, sobretudo, para quem os conheça mal) pode, à primeira vista, tornar-se "sedutor", "desafiador", "altivo" ou, até mesmo, "arrogante". Por favor, atente que eu disse parecer! Sendo que este tipo de "estratégias" ou de comportamentos são manifestações que pretendem mitigar ou disfarçar a vergonha, a insegurança, a revolta e a própria tristeza que vão sentindo. Reconheço que, num contexto como esse, haja circunstâncias em que eles possam desencadear uma ou outra "química" mais difícil nalgum professor. E, sobretudo, que possam ser penalizados com algumas "sobretaxas" em termos de classificação de testes ou da avaliação do próprio comportamento. É claro que um plano cheio de zigue-zagues como esse acaba por ser "vendido" por eles, sobretudo junto dos pais, como "empenhado q.b.", amigo dos "serviços mínimos", "desmotivado" ou, mesmo, "preguiçoso". Recordo que a preguiça é uma "defesa" contra a vergonha, contra a insegurança e contra a tristeza. Ou seja, não existe senão como comportamento "adaptativo" para fazer face a vários momentos em que se sintam aquém das expectativas que os pais colocam em relação a si e das competências que reconhecem neles próprios, por mais que pareçam (por vezes) pouco empenhados ou nada interessados em transformá-las em recursos. Um adolescente assim (por mais que dê, muitas vezes, a ideia do seu contrário) será altamente competitivo. Mas, como são os resultados que criam o método e são as vitórias que alimentam a motivação, face a aspectos que não correspondam aquilo que eles valham ou ao que desejam, é natural que pareçam já ter nascido "cansados". Ou mais capazes de "cumprir calendário" do que de gerir-se, em tempo real. Ou, ainda, que pareçam capazes de só "funcionar sob pressão", assumindo um mesmo formato em quase todos os anos letivos: de início, "preguiçam"; depois, afligem-se; e, quando quase ninguém esperaria que fossem capazes, transcendem-se. E... vencem. Até ao dia em que haja um pequeno senão que lhes "fure" os planos e, ao contrário da indiferença de que muitos estariam à espera, "desmoronem" e se entristeçam.

A questão que se pode colocar, de seguida, será: "De acordo... E onde entramos, nós pais, nisto tudo?..." Ao contrário daquilo que (imagino eu) gostariam que eu dissesse, em quase tudo. Reparem que um adolescente destes que sabe o que vale, começa por ser um filho desmedidamente amado. Depois, receio que o jeito "gingão" que ele possa ter, a resposta pronta, os argumentos mais imprevisíveis e, até, a tenacidade de fazer por ter "a última palavra", poderão empurrar os pais, vezes demais, para o papel de "chatos oficiais de serviço". Daqueles que ameaçam, dialogam, acalentam, se enfurecem e, finalmente, se afligem e... condescendem. Tudo isso a pretexto duma nota, por exemplo. Ao contrário daquilo que mais desejam, é como se fossem assumindo que um adolescente destes está legitimado a ter um "ódiozinho de estimação" por uma determinada disciplina (muito ao jeito de "cada um é para o que nasce") que fará com que a relação com ele vá a reboque das notas (ou dessa nota, em particular) e muito pouco em função de uma estratégia de fundo partilhada por ambos os pais.

Sendo assim, proponho que:

1. Considerem-se "proibidos" de ser "chatos". Mas sejam, sobretudo, exigentes. Isto é, em relação a tudo aquilo que entendam que ele deve fazer, não argumentem nem negoceiem. Exijam, simplesmente;

2. Não percam nunca de vista que sem resultados não há motivação e sem trabalho e alguma disciplina os resultados tardam em aparecer;

3. Em função disso, não é demais que um adolescente destes tenha para si mesmo todo o espaço que vai das aulas à chegada dos pais a casa ao seu próprio encargo, mas que tenha uma hora de trabalho por dia (sem música, telefone, televisão, computador, etc.). Mesmo que o faça muito contrariado, (irá acumulando créditos em relação a cada disciplina) e que argumente que não tem trabalhos de casa, testes, ou outros compromissos agendados;

4. Não repita nunca mais (desculpe a forma de o dizer!) "A mãe não exige que sejas o melhor. Só quer que tenhas positiva...". Isso funciona como ser exigente e amiga da "preguiça", ao mesmo tempo. Será quase como "convidá-lo" a "deixar-se estar". Sobretudo quando sente que, com algum trabalho, ele conseguirá ter outro tipo de resultados. Isto é, será essencial que ele seja honesto em relação aos pais e a ele próprio. E se, depois, fizer por ser um bocadinho melhor, todos os dias, tanto melhor;

5. Tenha, sobretudo, cuidado com o teste que acontece depois de uma boa nota. As probabilidades de se engasgar, a seguir, aumentam...;

6. É a constância dos bons resultados que "cicatriza" a insegurança;

7. Por último, e para já, os pais destes adolescentes estão "proibidos" de lhes dar tréguas. Mal o façam, quando derem por isso, corremos o risco de os termos "cansados". Uma outra vez.

P. S. - Só mesmo filhos desmesuradamente amados não aceitam um não... Que sorte a deles!